Desde o dia 2 de Fevereiro que o acesso de turistas à famosa Fonte Trevi, em Roma, passou a ser pago. De resto já desde 2024 que o acesso à área mais próxima da fonte se encontrava condicionado, com a limitação do número de pessoas que podia permanecer junto ao muro da fonte. Desde então que se formavam longas filas para o tal click num dos locais mais mágicos da capital italiana.
A implementação desta nova taxa de 2 Euros foi anunciada em Dezembro passado, representando uma mudança significativa na forma como as cidades históricas lidam com a pressão do turismo de massas. Todos os anos, milhões de visitantes concentram-se naquele espaço relativamente pequeno, criando problemas de sobrelotação, desgaste físico do monumento, impacto negativo na experiência dos residentes e custos elevados de manutenção e limpeza. É neste contexto que surge a aplicação de uma taxa específica associada à visita deste local.
A ideia de cobrar uma taxa para aceder a um monumento ao ar livre como a Fonte de Trevi é controversa. Afinal, trata-se de um espaço público, integrado no tecido urbano da cidade, historicamente acessível a todos. No entanto, a realidade actual é muito diferente daquela de décadas passadas. O turismo global aumentou exponencialmente, impulsionado por voos low-cost, redes sociais e plataformas digitais que transformaram certos lugares em atrações virais. A Fonte de Trevi é um exemplo extremo desse fenómeno: há momentos do dia em que circular na praça se torna quase impossível, e a contemplação tranquila do monumento é substituída por empurrões, um olho na ameaça dos carteiristas, selfies apressados e presença constante de forças de segurança.
A taxa de turismo surge, assim, como um instrumento de gestão. Um dos seus principais objetivos é regular os fluxos de visitantes, desencorajando a concentração excessiva em determinados horários ou dias. Ao introduzir um custo, ainda que simbólico, cria-se um filtro que pode reduzir o turismo puramente impulsivo, incentivando visitas mais conscientes e planeadas.
Outro argumento central a favor da taxa é o financiamento da conservação. A Fonte de Trevi exige manutenção constante: limpeza da pedra, controlo da água, reparações estruturais e vigilância. Atualmente, grande parte destes custos é suportada pelo orçamento municipal, ou seja, pelos contribuintes locais, que muitas vezes não beneficiam diretamente do turismo. Uma taxa específica permitiria canalizar receitas diretamente para a preservação do monumento e da área envolvente, tornando o sistema mais justo e sustentável.
No entanto, a implementação de uma taxa deste tipo levanta questões sociais e éticas importantes. Uma das críticas mais frequentes é a de que se estaria a “privatizar” o espaço público e a criar uma barreira económica ao acesso à cultura. Existe o risco de transformar a experiência urbana num produto pago, acessível sobretudo a quem tem maior poder de compra. Para mitigar este problema, é essencial que o modelo seja inclusivo, garantindo acesso gratuito ou fortemente reduzido para residentes, crianças, escolas e grupos culturalmente relevantes.
Há ainda desafios práticos. Como controlar o acesso a um espaço aberto? Como evitar filas, caos logístico ou conflitos? A solução poderá passar por sistemas de reservas digitais, controlo de entradas em determinados pontos da praça ou horários específicos para acesso regulado. Estas medidas exigem investimento inicial e uma gestão eficiente, sob pena de piorar a experiência em vez de a melhorar. Além disso, é fundamental evitar que a taxa seja apenas uma medida arrecadatória, sem impacto real na conservação ou na qualidade de vida local.
A experiência de outras cidades pode servir de referência. Locais como Veneza, Dubrovnik ou Barcelona já implementaram taxas turísticas ou mecanismos de controlo de visitantes, com resultados variados.
Em suma, a implementação de uma taxa de turismo para visitar a Fonte de Trevi reflete uma mudança de paradigma: da lógica de acesso ilimitado para a lógica de gestão responsável. Não se trata de impedir visitas, mas de garantir que elas sejam compatíveis com a preservação do património, o bem-estar dos residentes e a qualidade da experiência cultural. Se bem concebida e aplicada com transparência, esta taxa pode tornar-se um exemplo de como as cidades históricas podem enfrentar os desafios do turismo contemporâneo sem abdicar da sua identidade e do seu caráter público.
Nota práctica
O acesso só é pago durante determinados horários: às segundas-feiras e sextas-feiras, das 11h30 às 22h; nos restantes dias, das 9h às 22h.
