12 de Janeiro de 2025
Esta manhã foi uma confusão. Tinha a informação de que era fácil encontrar transporte para a fronteira aqui mesmo defronte da casa de hóspedes mas não era bem assim. E descobri isso pouco depos de chegar ao suposto local. Lá autocarros prontos a partir havia ali. Mas antes de chegar a eles fui interceptado por um intermediário. E o trabalho que ele teve para me arranjar o transporte. Andou por ali a bater às portas dos autocarros. Nenhum ia para onde eu precisava.
A solução foi arranjar-me uma boleia para o local certo, uma pequena estação de carrinhas bem afastada do centro onde me encontrava. Depois de muitos telefonemas lá veio um carro de alguém conhecido que já vinha cheio de outros candidatos a passageiros e seguimos para o tal lugar.
A partir daí as coisas começaram a correr bem. Conhecemos um inglês maluco que por ali andava, também à espera de transporte para a fronteira. O tempo ia passando e a carrinha não tinha quorum para arrancar. Entretanto estava com desejos de chupar pedaços de cana de açucar. Perguntei aqui e acolá e disseram-me que lá fora, na rua, havia alguém a vender.
E lá o vi, uma bancada encostada ao asfalto as uns 100 metros à frente. Perguntei o preço. Era rídiculamente baixo, uma coisa quase oferecida. As canas estavam arrumadas, em bruto, alinhadas na vertical, para serem cortadas a pedido. As maiores também eram baratas, mas eram umas bestas de uns 2 metros de comprimento e por mais desejos que tivesse mesmo para mim seria de mais. Encomendei uma das mais pequenas. Pedi para distribuir por dois sacos, um para mim e outro para um destino que já revelarei.

Ora a boa mulher que vendia, fazia-o com todo o profissionalismo, arranjando o material de forma metódica e diligente. Entretanto recebo uma mensagem: a carrinha já está cheia e estão só à minha espera. Ooops. Digo a ela para não se preocupar com detalhes, que tenho de ir. E ela… então mas, mas, mas. E eu, dá-me a cana assim que eu abro-a noutro sítio. Lá trouxe um bocado em bruto e os dois saquinhos com deliciosos pedaços.
O segundo saquinho dei-o ao moto boy que me indicou a senhora, mesmo junto ao portão da central de carrinhas, e disse-lhe para distribuir pelos colegas que ali estavam, uns seis rapazes. Foi um sucesso. Quando saímos fizeram uma festa, com grandes acenos e sorrisos abertos.
E lá fomos. De resto, a viagem até à fronteira não é longa. A pequena cidade que se distribui pelos dois países tem um nome peculiar: Gatuna. Mas a mim não roubou, tratou-me até bastante bem, pois a fronteira é muito fácil de passar, quer de um lado quero do outro. E logo estávamos no Rwanda, à espera do transporte para Kigali. Neste processo destacou-se um senhor de porte muito digno, que voltava a casa, e já no seu país encheu-se de orgulho e apresentou as diferenças: no Rwanda conduz-se pela esquerda, e o país é ordenado e limpo. Logo foi dizendo ao inglês maluco para por favor não andar na relva, no Rwanda não se faz isso.
E é mesmo assim. Na realidade, neste país é proibido o uso de sacos de plástico. Apenas um sinal de uma política de preservação do meio ambiente mais ampla. Há um orgulho generalizado de nacionalidade no Rwanda e esse sentimento de pertença fez disparar os níveis de civilidade. Pelo que me foi dito a chave para compreender isto encontra-se na liderança pós genocídio. O país foi bafejado por uma injecção de capital enorme. Ora em vez de o açambarcar quase todo, distribuindo parcelas pelos apoiantes mais importantes, o presidente Paul Kagame foi menos ganancioso que o típico líder africano: guardou para si uma parte relativamente pequena e garantiu que a a maioria do dinheiro fosse investido de forma estratégica. Construiu-se assim o moderno Rwanda, que de facto é muito diferente das nações envolventes.

Foi uma segunda parte de viagem muito agradável. A companhia era boa e a paisagem também. O campo ruandês revelava-se muito verde, com bonitas aldeias, tudo limpo e pitoresco. O inglês maluco colou-se ao senhor, sem rodeios: passou a ser o seu sugar daddy, como anunciou. O homem ria-se. No carro ia mais uma pessoa, um jovem local, tímido e com um inglês muito limitado. À chegada foi ele que se colou a mim, foi estranho, mas não vi ali qualquer problema, algumas coisas se podem ter passado naquela cabecinha… ou estava demasiado curioso para se deixar ir embora, ou queria ter a certeza que estávamos bem entregues… não sei. De qualquer forma quando comecei a ficar incomodado fui mais determinado na despedida e ele foi-se.
A carrinha deixou-nos no centro e ali regateei com uns taxistas. Chegados a um acordo seguimos então para a nossa casa para os próximos dias… que viria a ser uma surpresa.
Tinha assegurado um anfitrião no Couchsurfing e qual não é a minha surpresa quando chegado à morada encontro um restaurante indiano enorme e, diga-se, muito catita. Pois é, seria ali mesmo que ficaria. O meu benfeitor era o dono daquilo e tinha deixado instruções aos gerentes para me receberem e indicarem o quarto que tinha para mim.
Acomodados, foi descansar um pouco e preparar as coisas para sair um pouco. Em Kigali não se anda a pé. As coisas são distantes, a cidade estende-se muito, e não existe propriamente um centro onde os pontos de interesse se concentrem. De qualquer forma também já não tínhamos muito tempo. Entre as várias opções foi escolhida o Museu do Genocidio, por acaso bastante próximo do sítio onde tínhamos chegado à cidade.
Resumindo, foi decepcionante. Não apreciei nada ali. Um edifício feioso com exposições pobres, sem impacto, rodeado de jardins também sem vida. Talvez esta impressão negativa tenha sido afectada pelo tempo tristonho que se fazia sentir nesta tarde, com nuvens baixas a escurecer o céu e a mexer com os nervos. Mas se visitar Kigali, não leve grandes expectativas para este museu.
Regressados a “casa”, foi tempo de descansar mais um pouco e descer para um banquete de deliciosa comida indiana a um preço muito agradável. O meu anfitrião regressaria mais tarde e foi já à sua mesa no bar que o gerente me entregou um envelope. Continha a quantia exacta que tinha pago pelo jantar. Enquanto estivesse ali como convidado a despesa do restaurante era por conta da casa!
