2 de Janeiro de 2026
Noite díficil, o calor abafado no quarto não deu tréguas, nem com as duas barulhentas ventoinhas a apontar-me em simultâneo para o corpo nu. Subo para o pequeno-almoço ensonado, numa altura em que o cansaço já forçaria o sono que faltou nas horas devidas. A refeição é agradável, composta por alimentos frescos, preparados de forma personalizada segundo as nossas preferências.
O Arnold está ali, sempre activo, a correr entre tarefas. Escada abaixo, escada acima, umas palavras apressadas connosco.
Descanso no quarto, a esta hora sente-se um certo fresco, parece até que mais do que durante a noite. Preciso de aproveitar, o nível de energia é baixo depois da noite mal dormida e do calor abrasador da véspera.

Quando saímos para a rua repete-se o cenário e o problema omnipresente da temperatura alta. Por esta altura já não estou a gostar muito de Lamu. A magia do primeiro impacto já não existe, agora vejo lixo por todo o lado – e sabem que não sou de me queixar destas coisas – e odores desagradáveis. O cheiro de fezes de burro está por quase todo o lado, o próprio lixo espalhado um pouco por todo o lado não ajuda, nem tão pouco a água de esgotos que corre por canais abertos junto às vielas.
E depois, isto está mais ou menos esgotado. Qualquer coisas que se faça será uma repetição do que já se viu. Por esta altura tenho a certeza que ficar mais um dia em Nairobi foi uma coisa boa que aconteceu.

Agora resta andar por ali, beber um sumo de cana de açúcar, experimentar a fruta local, comprar alguns abastecimentos num supermercado. Estender um pouco mais a caminhada junto à água até chegar practicamente ao extremo da aldeia.
Regressar, voltar a passar pela rua do comércio, esquivar-me da bola dos gaiatos que ensaiam uma peladinha, encostar-me à parede para deixar um cortejo de jumentos passar. Nem tenho já inspiração para muitas fotografias.

Maré baixa. Ao concerto de aromas desagradáveis junta-se agora o de lodo e podridão oriunda do meio aquático, apenas atenuados pela observação dos detalhes. O barco que sulca a água com uns poucos turistas, as bandeiras das embarcações gastas pelas intempéries, as cargas variadas que aguardam o seu destino final encostadas à amurada.
O meu pensamento está já a vaguear por Nairobi. Será para lá que voltaremos no dia seguinte e a experiência que tive na cidade à chegada ao Quénia, surpreendentemente boa, é agora a cenoura que faz movimentar este burrico.

O dia passa-se sem muito mais. De referência apenas o homem sentado entre amigos vestindo uma imaculada camisola do Futebol Clube do Porto. Tal como aconteceu com o avistamento em Guanajuato, no México, depois de uma explicação, deixou-se fotografar, de semblante sério, cerimonial.
Apesar de quente já me apetece mais estar no quarto do que no exterior, um padrão meu em viagem: não estou a gostar, espero pacientemente que passe.

Voltaria às ruas já perto do pôr-do-sol. Procurava um barbeiro para rapar a cabeça e aparar a barba. Encontrei-o, nas traseiras do forte, onde me lembrava de o ter visto. Como quase sempre é uma experiência interessante. Para mim e para quem lá está. Mas desta vez, em alinhamento com a impressão geral de Lamu, não correu bem. Simplesmente um mau trabalho de barbearia. Não conseguiu bater a vietnamita que me me cobrou a absurda quantida de 7 USD e me torturou com lâminas gastas e cortes, não de cabelo mas de pele. Mas este lá próximo.
Jantámos no mesmo restaurante de véspera. Como se costuma dizer, em equipa que ganha não se mexe. A noite estava encantadora, a encorajar um último passeio em Lamu, sob uma lua cheia que espreitava por entre as nuvens.

