29 de Dezembro de 2025

Depois da canseira dos dias anteriores, que na realidade se encostou à estafa do Natal, que se seguiu à correria intensa entre o regresso da Mauritânia e esta viagem, este foi efectivamente o primeiro dia para curtir.

A ideia era acordar cedo, começar por visitar o Forte Jesus e depois partir à descoberta da cidade antiga.

O primeiro erro, OK, o único erro, foi ter ido a pé. Cerca de quilómetro a pé. Parece coisa pouca, mas não contei com o calor e a húmidade. E sobretudo a desabituação do meu corpo depois de dez dias de frio em Portugal. A meio já estava derreado, destruído, só pensava no ar condicionado do quarto e perdi quase todo o interesse em explorar Mombaça.

Pelo caminho passámos por uma catedral e uma série de igrejas mas nada me estimulava. Chegou-se ao Forte Jesus, o principal pólo de interesse turístico de Mombaça.

Forte Jesus, em Mombaça, é um daqueles lugares onde a história não está só nos painéis explicativos — está no calor das pedras, nas muralhas gastas e na vista constante para o mar.

Foi construído pelos portugueses no final do século XVI, numa altura em que Mombaça era estratégica para controlar as rotas comerciais do Oceano Índico. O objetivo era simples: proteger o porto e garantir presença numa costa onde passavam mercadores árabes, indianos, africanos e europeus. O resultado foi uma fortaleza sólida, pensada para resistir a ataques vindos tanto do mar como de terra.

Ao longo dos séculos, o forte mudou várias vezes de dono. Passou por portugueses, omanitas e, mais tarde, pelos britânicos. Cada um deixou marcas visíveis: inscrições, adaptações defensivas, espaços reutilizados. Houve períodos de conflito intenso, cercos longos e fases em que o forte serviu menos como defesa e mais como símbolo de poder.

Durante o domínio britânico, o Forte Jesus chegou a funcionar como prisão, o que ajuda a explicar o ambiente pesado de algumas zonas interiores. As celas ainda lá estão e contrastam com a vista aberta e luminosa das muralhas, viradas para o mar.

Hoje, o Forte Jesus é Património Mundial da UNESCO e funciona como museu. Há canhões, peças arqueológicas e objetos ligados ao comércio no Índico, mas a visita faz-se sobretudo com os pés e com o tempo. Caminhar pelas muralhas, olhar o porto antigo e perceber a posição estratégica do lugar diz tanto como qualquer texto de apoio.

O bilhete custa 1500 KES, mais umas taxas, fica por pouco menos de 10 Euros. Mas atenção, o pagamento em dinheiro não é aceite, por isso ou se trata das coisas calmamente em casa, antes de ir, ou uma pessoa terá que depender do funcionário da bilheteira para com a sua muito própria noção de tempo comprar pelo visitante o bilhete no website do ministério respectivo.

O forte é decepcionante e a sua inclusão na lista de Património Mundial da UNESCO é uma piada. É apenas um forte. Como centenas de outros fortes da sua geração. Se este está na lista, o de Diu deveria estar pelo menos dez vezes.

Há um pátio central, algumas salas intactas, uma casa omanita, uma parede cheia de frescos portugueses e umas quantas muralhas. E é isto. No que me toca – e gosto destes locais – foi coisa para me ocupar uns 15 minutos antes de me sentar à sombra a recuperar.

Este repouso deu-me novas forças e consegui retirar algo de positivo dos momentos que se seguiram. Estava lá no forte e pensava que estaria despachado para o dia e só queria meter-me num TukTuk para casa. Mas agora dava por mim a começar a palmilhar as velhas ruas do centro históriço de Mombaça.

Se até então tinha tirado umas quantas fotografias no forte, mais por sentido de obrigação do que por inspiração, o click começou a repetir-se de forma cadenciada.

Aquilo eram os gatos pachorrentos, as portas omanitas, as crianças que brincavam na rua, as fachadas decadentes, as trabalhadas varandas de madeira, a vasta superfície de água que abraça a ilha de Mombaça, as mulheres vestidas com roupas exóticas.

São ruas e ruelas com centenas de anos de história e muitos amos. Algumas são movimentadas, relativamente limpas e asfaltadas. Outras, obscuras, sujas, fedendo de fezes e urina, com piso de terra. É um bairro que sem surpresa – considerando a proximidade geográfica e cultural – tem algo de Zanzibar, de Stone Town. Mas mais pobre, mais miserável e, posta a noite, muito mais perigosa. É terreno onde não se deve andar e muito menos sozinho. As alcateias de jovens candidatos a criminosos andam por ali.

Mas de dia, nada, é sem medo. Mesmo com uma câmara pendurada ao ombro. E assim, com a sede a apertar, descobrimos o Forodhani restaurante, que me pareceu muito bem para uma pausa, mesmo antes de saber que é uma referência em Mombaça.

Chegámos antes da hora de almoço e estava bastante calmo. Sentámo-nos a beber algo refrescante e a ler e sem dar por isso aproximavam-se as 13 horas e já quase não havia mesas vazias. Era hora de ir para outras paragens.

Pouco depois descobrimos o Tulia Old Town Hostel. Estava na minha lista de possíveis alojamentos e acabou por ser preterido pelos problemas expostos nas reviews dos hóspedes. Mas o que eu não sabia é que tinha um belo café com uma varanda mesmo sobre a água e parámos de novo para mais uma bebida. Calhou-me na escolha um belo sumo de fruta, puro, espesso, sem água, misturando mil sabores exóticos, uma orgia para o paladar.

E depois restou vaguear pelas ruas, olhando para mesquitas de bairro, pormenores da vida quotidiana de quem só conhece aqueles cantos. Para esta fase do dia sobraram imagens, demasiadas para o texto que poderia escrever.

Foi assim até regressarmos ao ponto de partida. Queria espreitar um cemitério antigo que existe mesmo em frente ao Forte Jesus mas o portão estava fechado a cadeado. Consolei-me com o texto colocado no muro. Mais um, dos muitos que foram colocados, e muito bem, pela autoridade de turismo. Sem serem demais nem de menos, destacam alguns edifícios e locais de destaque da cidade antiga. Li com atenção todos os que encontrei.

E assim estava fechado o dia. Apanhámos um TukTuk mesmo ali e pelo caminho combinámos com o bom Rachid a ida para o aeroporto no dia seguinte.

Ao serão vi o Sporting receber e bater o Rio Ave por quatro bolas a zero e ainda arranjei tempo para acabar de ler o que tinha entre mãos e começar outro. Foi um dia que não começou bem mas ainda me ofereceu um bom copo de “sumo”.

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