A IATA — a organização que representa as companhias aéreas a nível mundial — lançou uma campanha de segurança com o nome Save a Life, Not a Bag, cujo objetivo é simples: convencer os passageiros a abandonar os seus pertences em caso de evacuação de emergência. O que parece óbvio, como veremos, está longe de o ser na prática.
O alerta surge na sequência de dados preocupantes recolhidos pela própria organização. Apesar de 80% dos inquiridos afirmarem saber como agir numa emergência a bordo, apenas 61% respondeu corretamente que os bens pessoais devem ser deixados para trás durante uma evacuação. Mais inquietante ainda: um em cada dez passageiros admitiu que tentaria levar consigo as suas coisas mesmo que a tripulação ordenasse o contrário.
Os padrões internacionais de certificação aeronáutica exigem que qualquer avião de longo curso seja completamente evacuado em no máximo 90 segundos. Não é muito tempo. E quando há passageiros a abrir compartimentos superiores, a puxar trolleys e a criar aglomerações junto às saídas, esse prazo torna-se cada vez mais difícil de cumprir. O risco não é apenas de atraso — os escorregas insufláveis utilizados nas evacuações podem ser perfurados pela bagagem, tornando-os inutilizáveis precisamente quando mais são precisos.
É neste contexto que a campanha ganha sentido. A IATA conta com o apoio das duas maiores autoridades reguladoras da aviação — a europeia EASA e a americana FAA —, o que dá ao alerta um peso institucional considerável.
Na reunião anual da IATA, realizada no Rio de Janeiro, o vice-presidente Nick Careen foi direto ao assunto: se a mentalidade dos passageiros não evoluir, estão em cima da mesa medidas bastante mais restritivas. Entre as opções discutidas contam-se coimas e penalizações financeiras para quem comprometa uma evacuação, mas também — e este é o pormenor que mais atenção tem gerado — sistemas mecânicos que impeçam o acesso aos compartimentos superiores durante toda a duração do voo.
Ou seja: se a sensibilização não resultar, pode chegar o dia em que simplesmente não conseguimos abrir o compartimento de bagagem até ao momento em que o avião aterrar. Uma medida que, convenhamos, levanta questões práticas consideráveis — medicamentos, documentos, objetos de que se pode precisar durante o voo — mas que reflete a seriedade com que a indústria enfrenta o problema.
Por agora, a aposta é na educação. A esperança é que não seja necessário ir mais longe. Mas o aviso está feito.
