4 de Dezembro de 2026
Acordámos nas nossas celas frugais, tomámos o pequeno-almoço naquela espécie de arrecadação onde dormiram o Sidi e o Havel e saímos para passear pela aldeia.
Tichit foi inscrita na Lista do Património Mundial da UNESCO em 1996. Fundada no século XII para servir as caravanas do Sahara, esta cidade tornou-se foco da cultura islâmica, com um tecido urbano desenvolvido entre a sua fundação e o século XVI, com casas de pátio ao longo de ruas estreitas e mesquitas com minarete quadrado.
Localiza-se sopé do planalto de Tagant, no centro-sul da Mauritânia, ligada por uma única pista de areia de 250 km a Tidjikja — o que a torna extremamente difícil de aceder e explica o isolamento profundo em que se encontra, a 170 metros de altitude.
A região tem raízes arqueológicas notáveis. O sítio neolítico do Dhar Tichitt foi ocupado por comunidades agropastoris por volta de 2000 a.C., com assentamentos construídos em pedra nas falésias locais — os mais antigos sobreviventes em África Ocidental e os mais antigos com base em pedra a sul do Sahara.
O seu apogeu deu-se no século XVII como polo de cultivo de tâmaras, com oásis de palmeiras que ainda hoje estão entre os maiores do país. Durante séculos, as rotas das caravanas transarianas traziam um fluxo constante de comerciantes a Tichit, a caminho de Timbuktu e dos assentamentos do Níger. O declínio começou quando o comércio passou a preferir as rotas marítimas, e acelerou quando o Rally Paris-Dakar, que passava pela cidade, foi transferido para a América do Sul em 2009 por razões de segurança.
O estado de conservação é preocupante. A desertificação, o avanço das areias e a falta de capacidade técnica tornaram a autenticidade do sítio vulnerável. Os manuscritos históricos que sobreviveram estão guardados de forma precária em casas particulares, sem controlo de temperatura nem financiamento externo — nada comparável ao que existe em Tombuctu. Por vezes passa um mês sem que um único carro chegue à cidade. Com cerca de 2.500 habitantes e turismo quase inexistente, o Património Mundial está aqui a desaparecer na prática, apesar do rótulo UNESCO.
Foi portanto uma honra passar por aqui e ver o que resta dos traços históricos da aldeia. Na realidade, a arquitectura não impressionou muito. Nada impressionará depois de passar por Oualata. Talvez o diz cinzento não tenha ajudado muito a formar uma memória positiva.
Mas valeu pela experiência humana. Foi um gosto falar um pouco com os dois homens que jogavam um jogo tradicional, com peças de material natural: as brancas, pedrinhas, e as pretas… bosta de cabra. Eram duas personagens divertidas, levavam aquilo a sério, zangavam-se por breves instantes, num ritual que, intuo, se vem a repetir ao longo dos anos.
Visitámos um padeiro, surpreendido com uma visita tão inusitada. Comprámos do seu pão, com sabor a uma experiência verdadeiramente genuína.
Antes de partir para o caminho, tempo de fazer compras. Paragem no mercado e numa loja geral, como quase sempre localizada na praça central. Por ali a cena repete-se: gente que passa, mães levando os filhos para a escola, pessoas também elas às compras, miúdos que jogam à bola.
De resto este foi um dia puramente de trânsito. De Tichit a Tidjikja são 230 km, mas nas condições duras do deserto. Não há uma estrada nem um estradão. A via é apenas uma ideia geral, quase abstracta, que ganha forma a tempos, quando aparecem marcas de rodados.
Vêem-se camelos, pequenas aldeias, acampamentos de nómadas. Paramos um pouco de tempos a tempos, para aliviar bexigas, tirar umas fotos, preparar e beber um chá. Encontramos velhos poços, mas raramente pessoas. Vamos a caminho de uma fase mais intensa da viagem, com pontos de interesse próximos uns dos outros, mas por ora é apenas ver os quilómetros passar. Parte da turma vai dormitando, trocam-se piadas, o ambiente no carro é bom. Tudo mudou em relação aos primeiros dias, de alguma tensão. Agora reina a harmonia, estabelecem-se laços de amizade que perdurarão para além da viagem.
Chegamos a Tidjikja. Depois das condições espartanas da véspera ter um quarto a sério é um luxo. Uma casa de hóspedes a sério, até com Wi-Fi!









