8 de Dezembro de 2025
Com todas as alterações que fizemos ao programa desde os primeiros dias, quando não nos deixaram atravessar para o Senegal, hoje seria para dormir em acampamento. Seria, mas não foi.
O dia estava a ser animado e ainda teria mais para nos dar. A caminho do acampamento que não chegou a acontecer passamos junto a um aglomerado de tendas nómadas e o nosso condutor tem outro desejo súbito de leite de cabra. Fiquei à espera no carro, não me sinto muito social, mas pelo que vi o pessoal divertiu-se bastante com os bem-dispostos nómadas. Só se via e ouvia rir!

A meu pedido fizemos um desvio para espreitar o Forte Saganne. Trata-se de um falso forte, construído para servir de base à rodagem do filme com o mesmo nome. Forte Saganne foi produzido em 1984, com uns jovens Gerard Depardieu e Catherine Deneuve nos principais papéis.
O forte está aberto ao público mas o interior é desnudado. A estrutura foi reparada e ali, perdida na imensidão, sem ima alma à vista, torna-se evidente que o desvio valeu a pena. Vê-lo ao longe, um ponto minúsculo num vale desértico que se estende a perder de vista, e aproximarmo-nos enquanto a estrutura cresce aos nossos olhos é qualquer coisa! Para apimentar as coisas fiz a aproximação na caixa da carrinha, deitado em cima de toda a bagagem.

Não sei em que ponto me lembrei que se acampássemos passaríamos ao largo de Atar, uma cidade com uma certa dimensão de importância estratégica, servindo de base para múltiplas unidades militares. Quem sabe existiria algo de interessante por lá… ? E depois apetecia-me uma noite confortável, com um tipo de alojamento que talvez pudesse encontrar numa localidade mais importante.
Falei nisso com o grupo, o Sidi ficou um bocado reticente, como seria de esperar com qualquer mexida no plano traçado. Mas a ideia era tão lógica que rapidamente acedeu. Teríamos que pagar do nosso bolso o alojamento e, claro, o deles os dois, já que essa despesa saía totalmente do orçamento.

Entretanto parámos num ponto de perfeito deserto, com dunas douradas a perder de vista. Mais uma série de fotos.
Já em Atar, passámos frente a uma série de instalações militares e lamentei não ter ficado com os contactos dos simpáticos oficiais que tinha conhecido.

Encontrámos um sítio ideal, uma propriedade de uma senhora holandesa com uma série de opções de alojamento. E nessa altura percebemos algo que nos surpreender: o Havel vivia ali mesmo, em Atar. Assim ficou decidido que íamos tomar chá a casa dele e depois voltaríamos para nos instalar.
Foi um momento alto da viagem. Conhecer o lar e a família daquele que ao longo destes dias se tinha tornado um amigo, sentir a hospitalildade do coração, beber aquele chá, desta vez com o seu estojo pessoal de preparação…. Ficámos por ali, a beber e a petiscar, na conversa, na paródia, vendo a alegria que lhe dávamos com esta visita. E depois voltámos para o alojamento.

Tinha decidido ficar em grande, num quarto privado com casa de banho, um espaço muito agradável, bem decorado, com elementos locais. Foi um luxo, um repouso em grande. Fez-me bem também estar sozinho. Longas horas de sossego, na boa arte do não fazer nada. Ironicamente, e sem razão aparente, nem dormi bem, mas enfim, regalei-me.
