Um dos países mais remotos e menos visitados do planeta mudou de nome. Nauru, o pequeno atol de coral no Pacífico central com pouco mais de 21 quilómetros quadrados e cerca de 12 mil habitantes, passou a chamar-se oficialmente República de Naoero, pronunciado algo como “Nau-êro”. A decisão foi confirmada pelo presidente David Adeang no final de Julho, depois de o parlamento ter aprovado a emenda constitucional em Maio. Inicialmente estava previsto um referendo para validar a alteração, mas o governo acabou por dispensá-lo, argumentando que Naoero nunca foi propriamente um nome novo: está gravado no brasão nacional, é usado no quotidiano pela população e já era permitido pela própria constituição do país.

A mudança tem também consequências práticas. O código internacional do país passa de NRU para NRO, e os seus habitantes deixam de ser chamados Nauruanos para passarem a ser conhecidos como dei-Naoero. A Organização das Nações Unidas já atualizou os seus registos oficiais, depois de um pedido formal do governo em Junho, e os ministérios dos negócios estrangeiros da Austrália e da Nova Zelândia, bem como as embaixadas dos Estados Unidos e da China na região do Pacífico, seguiram o mesmo caminho.

O nome “Nauru” impôs-se internacionalmente durante os períodos de administração estrangeira — o território foi colónia alemã no final do século XIX, passou depois por uma administração conjunta de Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido após a Primeira Guerra Mundial, e foi ocupado pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial, período em que muitos residentes foram forçados a trabalhos forçados noutras ilhas do Pacífico. “Naoero”, pelo contrário, é a forma como o povo sempre se designou a si próprio na sua língua. Ao recuperar oficialmente essa palavra, o governo enquadra a decisão como um gesto de reafirmação de identidade cultural, e não como uma simples alteração burocrática.

Vale a pena notar que este tipo de mudança de nome costuma seguir um de dois caminhos opostos, e o caso de Naoero ilustra precisamente o inverso do que aconteceu, por exemplo, com a República Checa. Em 2016, depois de duas décadas de deliberação, o governo checo recomendou oficialmente o uso do nome curto Chéquia para contextos informais — desporto, turismo, marcas comerciais — mantendo a designação longa, República Checa, para documentos oficiais e diplomacia. Ali, o objetivo foi facilitar e simplificar: encaixar o nome do país em camisolas de equipas desportivas, tornar a pronúncia mais acessível internacionalmente e resolver o problema prático de não existir, até então, uma forma curta e oficializada junto da ONU. Nauru fez precisamente o oposto. Em vez de encurtar ou simplificar um nome longo, abandonou a designação simplificada que os estrangeiros conseguiam pronunciar com mais facilidade e adotou a palavra mais complexa e menos familiar para quem está de fora, mas que é também a mais genuína e enraizada na sua própria língua. Onde a Chéquia caminhou na direção da conveniência internacional, Naoero caminhou na direção da autenticidade cultural, mesmo sabendo que isso implica alguma resistência inicial de adaptação por parte do resto do mundo.

Casos deste género não são inéditos. O Zimbabué já se chamou Rodésia, a Tailândia foi conhecida como Sião, Myanmar era a Birmânia e o Irão correspondia à antiga Pérsia — mudanças que, em geral, procuraram romper com heranças coloniais ou aproximar o nome oficial da identidade nacional. Nauru insere-se nesta tradição, embora com uma particularidade: ao contrário de países maiores, cuja mudança de nome gera intensa cobertura mediática e ajustes comerciais globais, Naoero é um dos territórios menos visitados do mundo, recebendo apenas cerca de 200 turistas por ano. Isto significa que, na prática, o impacto imediato para viajantes é reduzido — mas simbolicamente, a mudança tem um peso considerável para um país que enfrenta também outros desafios existenciais, nomeadamente a subida do nível do mar, que coloca Naoero entre os territórios mais ameaçados pelas alterações climáticas a nível mundial.

Para quem sonha em visitar todos os países do mundo — um objetivo que atrai um número crescente de viajantes obsessivos por colecionar destinos —, Naoero mantém-se como um dos desafios logísticos mais exigentes do planeta, com ligações aéreas escassas e infraestrutura turística praticamente inexistente. Mas o nome novo, ou melhor, o nome recuperado, é já parte da história recente deste minúsculo Estado insular que, apesar de ocupar um lugar quase invisível no mapa-múndi, continua a lembrar ao resto do mundo que a forma como um país se chama a si próprio nem sempre coincidiu com a forma como o mundo decidiu chamá-lo.

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