O que é a “Fair Travel Promise” da Volotea — e porque está a gerar polémica

A “Fair Travel Promise” é o nome que a companhia aérea low-cost espanhola Volotea deu a uma cláusula incluída nas suas condições de transporte que lhe permite ajustar o preço de um bilhete já comprado e pago, com base nas flutuações do preço do combustível de aviação, até sete dias antes da partida.

O mecanismo funciona assim: a Volotea consulta os dados públicos do mercado de combustível sete dias antes do voo e, se o preço tiver subido acima de um determinado limiar, aplica uma sobretaxa ao passageiro, que pode atingir até 14 Euros por pessoa por voo. Se o preço tiver descido, a companhia compromete-se a reembolsar a diferença, até ao mesmo valor máximo. O ponto de referência definido pela Volotea é um barril de Brent entre 65 e 75 dólares — abaixo desse intervalo não há qualquer ajuste.

A política entrou em vigor a 16 de Março de 2026 e aplica-se a todas as reservas efectuadas a partir dessa data. O contexto imediato é a instabilidade no Médio Oriente, que provocou uma subida acentuada nos preços globais do combustível de aviação. Enquanto dezenas de companhias aéreas por toda a Europa e Ásia introduziram sobretaxas de combustível em novas reservas desde o início desta crise, a Volotea é a única transportadora a tentar cobrar valores adicionais em reservas já existentes.

Na prática, os passageiros começaram a receber e-mails da Volotea dias antes da partida a informá-los de que teriam de pagar uma sobretaxa antes de poderem embarcar num voo que já tinham reservado e pago. As mensagens invocam a “Fair Travel Promise” e incluem um link para o pagamento, advertindo que a recusa em pagar pode resultar na negação de embarque.

O problema legal

A questão central é se isto é sequer legal. A resposta curta é: provavelmente não, ou pelo menos não de forma clara.

O regulamento europeu de direitos dos passageiros estabelece que o preço publicado deve incluir todos os impostos, taxas e sobretaxas inevitáveis e previsíveis, e que o passageiro não deve descobrir posteriormente encargos adicionais sobre um voo já escolhido. Este princípio está consagrado no direito da União Europeia e constitui um dos pilares da transparência tarifária na aviação.

A posição da Volotea é que a cláusula estava disponível nas suas condições de transporte no momento da reserva, e que o passageiro a aceitou ao comprar o bilhete. O próprio contrato de transporte da companhia exige que os passageiros tenham sido informados desta possibilidade durante o processo de reserva — incluindo a metodologia aplicável aos aumentos ou descidas. O problema é que essa informação não estava apresentada de forma clara e acessível para o utilizador médio, o que fragiliza consideravelmente o argumento da companhia.

Em França, a lei do consumidor trata as sobretaxas de combustível como parte integrante do preço do bilhete e, em geral, não permite revisões de preço após a compra, o que levanta sérias dúvidas sobre como esta prática será interpretada pelos reguladores. Em Itália, a União Nacional dos Consumidores apresentou uma queixa formal à autoridade da concorrência, argumentando que a “Fair Travel Promise” não é uma promessa de viagem mas sim uma sobretaxa cobrada a quem já comprou o bilhete, e que a tabela de referência publicada pela Volotea é enganosa porque o intervalo base entre 65 e 75 dólares seria arbitrário e deceptivo.

Se a companhia negar o embarque a um passageiro que se recuse a pagar, o Regulamento Europeu 261/2004 pode dar direito a uma indemnização entre 250 e 600 Euros, dependendo da distância do voo. Ou seja, ao tentar cobrar uma sobretaxa de 7 a 14 Euros, a Volotea arrisca ficar obrigada a pagar muito mais.

Em resumo

A “Fair Travel Promise” é, no essencial, uma tentativa de transferir o risco de flutuação do preço do combustível para o passageiro depois de o contrato ter sido celebrado. A política pode soar inovadora ou até razoável, mas vai contra o modo como os preços de aviação funcionam tradicionalmente e provavelmente conflitua com as regras europeias de protecção ao consumidor. Por agora, a Volotea é a única companhia europeia a praticar isto. Se as autoridades reguladoras intervirem — e há indicações de que vão fazê-lo — é pouco provável que a cláusula sobreviva ao escrutínio legal tal como está redigida.

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