2 de Dezembro de 2026

Depois da intensidade do dia anterior, que terá sido o melhor da viagem, este 2 de Dezembro foi um pouco ensonço. Não se passou muito. O acordar, o pequeno almoço preparado no chão como costumamos fazer, a partida. Deixo mais uns comprimidos ao anfitrião que sorri com os poucos dentes que ainda lhe restam. Antes de sair para a estrada há que fazer uma paragem para abastecimentos na loja local. Esperem! Eu disse estrada? Enganei-me. Daqui para a frente, e para já para todo o dia de hoje, não há estrada. Não há trilho. Não há nada, apenas o deserto pedregoso, o maior desafio até ao momento para o nosso herói navegante. Já veremos como ele se safa.

Em Oualata a atmosfera está estranha. Caiu sobre a povoação uma nuvem amarelada. Partículas de areia que obscurecem o sol e criam uma névoa. A loja encontra-se na praça central da parte moderna da aldeia. Moderna mas não muito, que não se pense que se encontram aqui edifícios modernos, simplesmente são mais sóbrios do que os da parte histórica. E estão inteiros.

 

Na ampla praça andam pessoas, de um lado para o outro, tratando das suas vidas. Mães que levam os filhos para a escola, gente que vai às compras, homens tratando de carros marcados pela dureza dos elementos, miúdos que correm, jogam à bola, metem-se connosco. As cabras, omnipresentes, andavam por ali. A tempos passava uma viatura, provavelmente igual à nossa. Sem dúvida que a Toyota tem na Mauritânia um mercado fiel.
O Siri e o Havel levam um longo tempo dentro da loja. Compreende-se. Tão cedo não veremos civilização, é preciso garantir as refeições que se seguem.

Finalmente está tudo pronto. Uma passagem pelo posto de polícia para reportar a nossa saída e aí vai ele, o Pedro Álvares Cabral dos nossos dias, estudando o deserto que se abre diante de nós, procurando decidir bem o ponto para iniciar a jornada. Olho e não vejo nada para além do infinito, mas o lobo das areias tem outra perspectiva. Estamos em movimento.

Durante todo o dia vai ser isto e apenas isto: Havel a conduzir, totalmente concentrado, levando o Hilux na rota certa sem que ninguém entendesse como. Era como se tivesse um GPS integrado na mente. Por vezes hesitava, percebia-se uma ponta de dúvida, via-se na sua expressão uma ligeira preocupação, que podia durar mais ou menos tempo, dependendo da rapidez com que encontrava aquele trilho para nós imaginário mas bem real aos seus olhos.

Passámos próximo de uma caravana de camelos carregados de sal. Também os seus condutores seriam dotados da habilidade para manter a rota certa sem explicação aparente.

Vimos acampamentos nómadas, comunidades de pastores sem âncora. A muitos quilómetros do último sinal de presença humana descobrimos cabras e camelos isolados. Tornaram-se animais selvagens. Diz-nos o Sidi que o número de camelos que fugindo dos seus humanos erram pelo deserto é enorme.

Mais à frente temos oportunidade de ver um grupo enorme destes animais a beber água que os tratadores retiram de um grupo de poços.

Faltando ainda os burros para esta espécie de comunidade fantasma de bicharada foragida, apareceram mais à frente. Um, com ares de líder, mantinha-se numa postura imponente no topo de uma rocha controlando as imediações.

Entretanto o tempo não parava. A luz tornava-se dourada, a paisagem agora era ampla, a perder de vista, montanhosa, árida, dominada por tons de castanho. A viatura rolava sobre um trilho discretamente marcado, por onde não passariam muitas rodas.

Começávamos a pensar onde acampar, porque hoje seria uma noite no exterior, um toque especial no programa, com o silêncio absoluto do deserto e a infinidade de estrelas lá em cima, num céu limpo de poluição visual.

E nisto passamos junto a uma tenda. O nosso pessoal enceta uma conversação com o único ocupante. Parece que o Havel tinha sentido um desejo de beber leite de cabra, algo que ali não faltaria pois um belo rebanho rondava a tenda. E conversa puxa conversa e vêm-nos dizer que o homem nos tinha convidado a pernoitar ali.

Não teria sido a minha escolha – apenas porque depois de um dia inteiro com pessoas, quando chega a noite quanto menos gente tiver em redor melhor me sinto – mas senti a quase unanimidade na aceitação da proposta, por razões diferentes, e soube que tinha que cedo. Naquele contexto, pelo menos para mim, o ambiente era tenso. Não havia conversa, sentia-me mal a falar inglês, e ainda mais português, quando estava convidado em casa de alguém que não compreenderia nada.

A rapaziada começou a preparar o jantar, que era parte das suas funções, não sem antes aprontar o sempre presente chá. Por dia devíamos tomar uns 15 copitos de chá, à maneira mauritana: os trâmites de preparação nunca os consegui absorver, mas sei que envolvia muita fervura, espuma, passagens de um recipiente para outro em grande estilo, levantando a cafeteira ao alto e vertente o líquido. E quando era servido existia um protocolo. O primeiro copo seguia para a pessoa mais afastada, que deveria devolvê-lo assim que possível pois muitas vezes não havia recipientes para todos. E seguiam-se mais duas rodadas Sempre. Três copitos no total.

E então deu-se o drama. Entre eles, os locais, inicia-se uma conversa, traduzida de forma sumária. “O homem pergunta se queremos comer esta cabra”. Ao que aparece com uma cabritinha presa por uma perna. Não estava a gostar do andamento das coisas. Fui ler para o carro.

Passado um bocado o Havel veio chamar-me, insistentemente, do tipo de chamada a que não se consegue resistir. A esta hora a Daisy – como tínhamos chamado a bicha – já não existia enquanto ser vivo. O ambiente estava pesado. Os meus companheiros, que ficaram na tenda, tinha pensado que era uma brincadeira. Não era.

Fui logo dizendo que para mim, essa carne, nem pensar, e deixei-me ficar com uma fúria enorme a germinar dentro de mim. Umas grandes trombas aqui e sorrisos amarelos dos outros.

Quando o Sidi arranjou coragem para me perguntar se estava tudo bem, foi o desabafo total, de forma educada mas com muita insatisfação no discurso. Enfim, depois disso o ambiente melhorou, fizeram-se umas piadas. Pronto, como se costuma dizer não valeria a pena chorar sobre leite derramado.

O que sei é que o diabo da cabra deu para três refeições, cozinhadas de forma diferente. Alguém disse que tinha sido a melhor carne alguma vez experimentada. Ficámos por ali ao serão, até que me retirei para a minha própria tendinha, que o pessoal tinha montado.

Havia uma janela na tenda por onde entrava o vento gelado que acentuava o mítico frio nocturno do deserto. E estava ali a tentar dormir quando ouço umas patas num trote ritmado passar muito perto, seguido de um resfolegar.

Meti a cabeça de fora. Estava um camelo estacionado frente à tenda do vizinho. Ouvia vozes. A curiosidade motivou-me, fui até lá. A visita tardia era um nómada que estava a viver um pouco mais à frente. Tinha ficado sem tabaco e veio cravar uma dose de emergência ao nosso anfitrião.

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