5 de Dezembro de 2026
Continuamos a nossa viagem pela Mauritânia, partindo pela manhã de Tidjikja tendo como destino Tirjit. Trata-se de um dos oásis mais surpreendentes da Mauritânia, localizado no deserto do Adrar, não muito longe de Atar e de Chinguetti.
Na rotina diária há uma pausa entre o pequeno-almoço e a saída para o caminho para compras no centro da aldeia. Enquanto o pessoal tratava dos abastecimentos dei uma volta por Tidjikja, e esse pequeno passeio foi dos melhores momentos da viagem.
Tudo ali é pitoresco, evocando fragmentos do imaginário daquele mundo fisicamente não tão distante, mas culturalmente noutra galáxia. Sou puxado para as velhas histórias da infância, que falavam de heróis e aventureiros da Legião Estrangeira, dos desertos sem fim, da agina da sede, das miragens traiçoeiras. Estar ali é viajar não só no espaço mas também no tempo. Aqui não há roupas “normais”. Toda a gente veste os mantos tradicionais, as cabeças, cobertas, com os longos lenços enrolados, em muitos casos deixando apenas os olhos visíveis.
As ruas não são asfaltadas, o que contribui para o ambiente. As lojas parecem o cenário de um filme de época, no exterior há vendedores de rua. Compro a um saco de tâmaras. Não um saco como os conhecemos, de plástico. Não, aqui as tâmaras são transformadas numa pasta que é depois embalada num recipiente cozido de pele de cabra. Um método de conservação tradicional que permite o consumo muitos meses depois.
Um costureiro numa pequena loja de esquina repara-me o traje local, que se rasgou um pouco.
Pomo-nos a caminho. Aproximamo-nos de outra aldeia, vindos de cima, peço para parar para poder observar e fotografar. Uma miúda em idade escola vem descendo, em direcção à povoação. Fala longamente com o elementos feminino do nosso grupo. Do outro lado vem um rapazito, um pouco mais novo, que também pára num momento que certamente lhe ficará na memória.
E mais uma aldeia, onde paramos um pouco. Daqui destaca-se um carro de burro com…. uma matrícula espanhola.
A viagem prossegue. Também hoje temos um longo caminho a percorrer, mas agora há variantes, locais para parar, pequenos desvios. Como aquele que fazemos para um ponto de água que quase nunca seca e que na época em que chove mais cria interessantes piscinas naturais. Não é o caso em Dezembro.
Mais uma paragem, desta vez num oásis. Pedimos autorização a um proprietário para ver o seu jardim. Local considerado adequado pelo Havel para mais uma sessão de chá.
De novo a rolar, com a paisagem habitual. O deserto, quase sempre pedregoso, de tempos a tempos com dunas de areia dourada. O ambiente no carro continua excelente. Vamos pondo música no carro a partir do meu telefone. O Havel fica espantado com a minha coleção de temas mauritanos. E também se diverte com a música ocidental.
Há até asfalto, um luxo raro, algo que já não víamos há muito. E do bom, permitindo uma velocidade estável. É raro vermos outra viatura. Dá para todo o tipo de brincadeiras quando paramos para esticar as pernas.
Deparamo-nos com paisagens impressionantes. Formações rochosas a fazer lembrar filmes de cowboys, o Grand Canyon parece ter-se mudado para a Mauritânia, perdendo um pouco do seu volume pelo caminho. Outras vezes descobrimos aldeias que vimos de cima, quando nos aproximamos desde um ponto mais alto.
E com tudo isto chegamos a Tirjit, já ao meio da tarde. O Havel quer entrar em grande estilo: em vez de conduzir pela estrada, sobe um cerro até um ponto de onde se tem uma perspectiva geral da aldeia, e depois, para nosso espanto, desde mesmo por ali, morro quase a pique abaixo.
Paramos primeiro no alojamento. Pode ser rudimentar mas é amoroso, com casinhas brancas decoradas a azul e um pátio agradável onde volumosas bougainvilleas oferecem um petisco às cabras decorosas que por ali aparecem.
É um vale encaixado entre falésias rochosas, onde a água corre de forma permanente — algo raro no Sahara. Essa água alimenta um pequeno oásis com palmeiras e vegetação densa, criando um contraste quase irreal com o deserto árido que o rodeia.
O que torna Tirjit especial não é apenas a paisagem, mas a sensação de isolamento e frescura. Há uma nascente que forma uma espécie de cascata baixa, onde a água escorre pela rocha e permite banhos — uma experiência bastante marcante depois de dias no calor seco do deserto. Tradicionalmente, o local é usado tanto por viajantes como por populações locais para descanso e abastecimento.
O oásis também tem um lado cultural interessante. Durante séculos, foi uma paragem natural nas rotas transaarianas, funcionando como ponto de água e abrigo. Ainda hoje, há pequenas estruturas simples e áreas de acampamento, e é comum encontrar tendas ou pequenos alojamentos rudimentares.
Instalamo-nos, descansamos um pouco e pouco depois voltamos a sair para visitar o oásis e os seus cursos de água fresca, que são afinal a atracção que nos leva ali.
É um passeio de cerca de 1,5 km, atravessando parte da aldeia, e entrando depois numa área onde alguns projectos falhados de alojamento turístico se encontram.
E depois lá está, o oásis, com as suas palmeiras elevadas, uma enorme frescura que se sente na pele, como que pressentindo a água que corre mais à frente.
Encontra-se ali um pequeno e agradável café, há casas de banho limpas e três tanques onde se vai a banhos. Estão todos ocupados por famílias locais.
Ainda há pouco a luz era imensa, e agora, com toda a sombra proporcionada pelas árvores, parece quase de noite. Que local!
Este foi um bom dia, diversificado, com memórias que ficarão, muitas fotografias, paisagens, pessoas, aldeias, paisagens impressionantes e, para o final, este oásis louco, cheio de água fresca.














