6 de Dezembro de 2025
Rumo a Chinguetti, alguma estrada, poucas memórias a guardar. Paramos junto a um trilho que conduz a uns pequenos lagos, um lugar agradável onde chegamos depois de caminhar um pouco. O Havel ficou no carro, e quando regressamos vemos que está a fazer uma festa com a minha música. A uns 200 metros já se ouvia a barulheira.
Rolámos mais um pouco. No meio do nada, num ponto onde o horizonte parecia infinito, parámos para o xixi próximo de uma casa abandonada. Fui lá meter o nariz. Tinha inscrições nas paredes. Entre os gatafunhos vejo algo de arregalar os olhos: “Benfica”. E depois, noutro ponto, “Portugal”.
Eventualmente chegamos a Chinguetti, sem mais novidades.
A aldeia foi fundada no século XIII, provavelmente por volta de 1264, como posto de paragem das caravanas transarianas que ligavam o Magrebe à África Subsaariana. O comércio de ouro, sal, escravos e marfim passava por ali. Com o tempo tornou-se também um centro religioso e intelectual importante, ponto de congregação dos peregrinos da África Ocidental antes da travessia do Sara em direcção à Meca — daí a tradição que a coloca como a sétima cidade sagrada do Islão, embora essa designação seja mais devocional do que teológica formal.
Entre os séculos XIV e XVII atingiu o seu apogeu. Havia escolas corânicas, juristas, astrónomos, e uma tradição de bibliotecas privadas que persiste até hoje. Estima-se que as colecções particulares ainda existentes em Chinguetti reúnam entre 1.300 e 5.000 manuscritos, dependendo das fontes, cobrindo direito islâmico, astronomia, matemática, gramática e poesia.
O declínio começou com a mudança das rotas comerciais e a expansão colonial francesa no século XIX. A cidade nunca recuperou o dinamismo que tinha tido no seu apogeu.
Tinha grandes expectativas para este local. Antes de partir para a viagem, lendo artigos e vendo imagens, pareceu-me o mais espectacular do programa. Mas nada conseguiria bater Ouatara. De qualquer modo o meu humor não estava dos melhores neste dia. Talvez o céu cinzento estivesse a interferir com a minha energia.
Passeámos pela cidade antiga, mas rapidamente se torna mais do mesmo. Velhos edíficios em ruínas, feitos de pedra avermelhada. Fomos à mesquita e da mesquita fomos corridos por um velhote. Acabámos por descobrir um terraço com uma vela vista sobre tudo aquilo. O dono falava com alguém, fazia uma encomenda. Dá para perceber que vai abrir ali um negócio, provavelmente um café restaurante. Pedimos bebidas, mas ainda estamos no passado do local. Ainda não há o café, mas não o impede de fazer um bom negócio, metendo-se no carro – um Mercedes impecável – e voltando pouco depois com a encomenda, que pagamos regiamente.
Os meus companheiros foram com um senhor local ver umas peças dos famosos manuscritos de Chinguetti. Não estava para ai virado, sentei-me no chão no exterior da casa e esperei.
Foi então que conheci três jovens tenentes, como eu uma vez fui, que estavam a visitar a cidade. Um deles era de lá, mostrava-a orgulhoso aos camaradas. Gente simpática, fiquei com pena de não guardar contactos até porque acabei por passar uma noite na cidade onde estão colocados, numa unidade de infantaria em Atar.
Já a tarde chegava ao fim quando tive oportunidade de ver algo interessante: um pouco afastado da parte antiga, na zona mais densamente habitada da aldeia, há um velho forte francês, usado até à relativamente pouco tempo pelo exército mauritano. A estrutura é toda original, antiga, mas nota-se em pequenos detalhes uma tentativa de modernização: interruptores eléctricos, tubagens recentes, uma velha máquina de lavar louça enferrujada, deixada no canto de uma sala.
Foi um prazer explorar os cantos do forte. As salas, o pátio da parada, a muralha. Existem dois níveis defensivos, e quando nos vínhamos embora uma legião de putos disputava animadamente uma peladinha.










