A famosa “rua do comboio” de Hanói, no Vietname, tornou-se ao longo dos últimos anos um dos símbolos mais curiosos e controversos do turismo no Sudeste Asiático. Situada em bairros antigos da capital, como o distrito de Ba Đình, esta estreita via férrea atravessa uma zona densamente habitada, onde casas, cafés e pequenos negócios coexistem a escassos centímetros da passagem dos comboios. A imagem de turistas a beber café enquanto um comboio passa a poucos passos tornou-se viral nas redes sociais, transformando o local numa atração global.

No entanto, essa popularidade trouxe consigo problemas sérios de segurança e gestão urbana. O governo vietnamita, juntamente com as autoridades locais de Hanói, tem vindo a expressar preocupações crescentes com o número de visitantes que ocupam a linha férrea diariamente. Muitos turistas ignoram as regras básicas de segurança, posicionando-se perigosamente perto dos carris para tirar fotografias ou vídeos. Apesar dos avisos e das tentativas de controlo por parte das autoridades, a situação tornou-se cada vez mais difícil de gerir.

Face a este cenário, o governo decidiu avançar com medidas mais rigorosas, incluindo o encerramento da chamada “rua do comboio” ao público. A decisão não surgiu de forma repentina: já desde 2019 que as autoridades vinham implementando restrições periódicas, encerrando cafés e limitando o acesso à área. No entanto, essas medidas revelaram-se insuficientes, uma vez que o fluxo de turistas continuou a crescer, impulsionado sobretudo pelas redes sociais e pelo turismo de massa.

A principal razão para o encerramento prende-se com a segurança. Os comboios continuam a circular regularmente naquela linha, e qualquer descuido pode resultar em acidentes graves ou mesmo fatais. Para além disso, a presença constante de turistas interfere com o funcionamento normal da linha ferroviária, criando atrasos e complicações operacionais.

Outro fator importante é a pressão sobre a comunidade local. Muitos residentes viram as suas casas e negócios transformados em atrações turísticas, o que trouxe benefícios económicos, mas também uma perda significativa de privacidade e qualidade de vida. O aumento do ruído, da poluição e do comportamento pouco respeitoso de alguns visitantes gerou tensões entre moradores e turistas.

Com o encerramento definitivo ao turismo, as autoridades pretendem recuperar o controlo da zona e garantir condições de segurança adequadas. Ao mesmo tempo, há um esforço para promover formas de turismo mais sustentáveis e responsáveis, que respeitem tanto os visitantes como as comunidades locais.

Ainda assim, a decisão não deixa de gerar controvérsia. Para muitos viajantes, a “rua do comboio” representava uma experiência autêntica e única, difícil de encontrar noutro lugar do mundo. Para os pequenos empresários locais, o encerramento significa também a perda de uma importante fonte de rendimento.

O caso da rua do comboio de Hanói reflete um dilema cada vez mais comum em destinos turísticos populares: como equilibrar o crescimento do turismo com a segurança, a sustentabilidade e o bem-estar das comunidades locais. No Vietname, a escolha foi clara: privilegiar a segurança e a ordem pública, mesmo que isso implique abdicar de uma das suas atrações mais icónicas.

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