Durante um quarto de século, entrar no Museu Britânico não custou nada. O mesmo se aplica ao Museu de História Natural, ao Victoria and Albert, à National Gallery, à Tate Modern e a dezenas de outras instituições nacionais. A política de entrada gratuita universal foi introduzida pelo governo trabalhista em 2001, com o objectivo de alargar o acesso à cultura e estimular o envolvimento da sociedade britânica com o seu património. Tornou-se uma espécie de ponto de orgulho nacional — uma das raras políticas públicas que cumpriu genuinamente a sua promessa igualitária.

Esse princípio está agora sob pressão séria. O governo trabalhista de Keir Starmer estuda a possibilidade de cobrar entrada aos visitantes internacionais nos museus nacionais, o que representaria o fim de uma política com 25 anos de existência. A secretária de Estado da Cultura, Lisa Nandy, declarou que os ministros irão trabalhar com o sector museológico para explorar as potenciais oportunidades de cobrança de bilhetes a visitantes estrangeiros, com o objectivo de apoiar a resiliência financeira a longo prazo destas instituições. Uma actualização está prevista para antes do final do ano.

A proposta não surgiu do nada. Em Dezembro de 2025, a baronesa Hodge — antiga deputada trabalhista — publicou uma revisão independente ao Arts Council England que recomendava formalmente a introdução de taxas de entrada para visitantes internacionais, a par da implementação de um sistema de identificação digital. Em Março de 2026, o governo anunciou que iria começar a explorar as opções disponíveis.

Os números que sustentam a proposta não são desprezíveis. Os visitantes estrangeiros representam 43 por cento do total de entradas nos principais museus e galerias britânicos, o equivalente a 17 milhões de visitas nas últimas estatísticas oficiais disponíveis, referentes a 2023–24. O Museu de História Natural foi a atracção mais visitada do Reino Unido em 2025, com 7,1 milhões de visitantes — um aumento de 13 por cento face ao ano anterior. O Museu Britânico ficou em segundo lugar com 6,4 milhões, seguido do complexo real de Windsor com 4,9 milhões, a Tate Modern com 4,5 milhões e a National Gallery com 4,1 milhões.

Quanto ao valor a cobrar, fontes próximas das negociações apontam para um intervalo entre 15 e 20 libras, tendo em conta que o Metropolitan Museum de Nova Iorque cobra 30 dólares, o Louvre até 32 euros e o Prado 15 euros. Já em 2024, Mark Jones, então director interino do Museu Britânico, havia proposto uma taxa de 20 libras para visitantes estrangeiros, invocando exactamente esses exemplos internacionais. O argumento é simples: a Grã-Bretanha é o último bastião num mundo em que as grandes instituições culturais há muito adoptaram a entrada paga, e já não pode dar-se ao luxo de ser a excepção.

Nem todos aceitam este raciocínio. Tristram Hunt, director do Victoria and Albert Museum, opõe-se à medida, argumentando que ela trai o princípio fundador da política de acesso livre e que poderá dissuadir visitantes de entrar nos museus — além de levantar questões complexas sobre como seria aplicada na prática. Hunt propõe uma alternativa: utilizar as receitas da taxa turística sobre estadias em hotel — que várias cidades britânicas, incluindo Londres, planeiam introduzir — para garantir a continuidade da entrada gratuita. A Museums Association vai na mesma direcção, alertando que cobrar com base na nacionalidade pode ser o início de um deslize que acabará por pôr em causa a gratuidade para todos.

A questão da fiscalização é, aliás, um dos maiores obstáculos práticos. O Reino Unido não dispõe de um sistema de identificação universal. O projecto de cartão de identidade digital obrigatório anunciado por Starmer em Setembro de 2025 foi recuado para um esquema voluntário depois de enfrentar forte resistência política. O sistema GOV.UK One Login conta actualmente com cerca de 12 milhões de utilizadores registados — um número muito aquém da cobertura necessária para identificar, à entrada de um museu, quem é residente britânico e quem é turista dinamarquês. Especialistas estimam que estes obstáculos técnicos e políticos poderão atrasar a implementação efectiva da medida em dois a três anos — e que os custos de construção de infra-estruturas de controlo poderão, pelo menos inicialmente, anular as receitas geradas.

A opinião pública acrescenta mais uma camada de complexidade. Uma sondagem encomendada pelo Art Fund a 2.000 pessoas revelou que 72 por cento dos inquiridos acredita que as receitas de uma taxa turística deveriam ser usadas precisamente para manter a entrada nos museus gratuita para todos.

No fundo, o debate não é apenas financeiro. É uma questão sobre o que um museu deve ser — e para quem existe. A Grã-Bretanha construiu as suas colecções nacionais em grande parte com os despojos do império; o argumento de que essas colecções devem estar abertas a todos, independentemente da origem, tem um peso que vai muito além do preço de um bilhete. Se um governo confrontado com finanças públicas apertadas se sentirá vinculado a esse argumento é, por enquanto, uma questão em aberto.

Subscrever o boletim semanal
às Sextas-feiras o resumo dos artigos publicados no
Cruzamundos na última semana.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui