17 de Janeiro de 2026

Escrevo estas linhas no aeroporto de Kigali. É uma da manhã, o meu amigo Karim acaba de me largar junto ao portão do perímetro das instalações. Os processos são simples e é um aeroporto pequeno. A segurança encarregue de monitorizar as bagagens que passam no tapete acaba de me deixar passar um “garrafão” de elixir oral. Intencionalmente, depois de ver o que era.

A esta hora há operações neste pequeno aeroporto o que por si só é fantástico. Há muitas pessoas. Um só tapete para inspeção de bagagens, uma porta de embarque. E é agora tempo de fazer um balanço dos dias de Kigali, aliás, do Rwanda.

Karim e eu esperando pela hora de seguir para o aeroporto

Dos países da região por onde passei – Quénia, Uganda, Rwanda – este é o mais bonito. Aos meus olhos, claro. A paisagem é cheia de cor, os verdes são fortes e a morfologia impressiona. Por todo o lado há colinas e como que na capital ainda mais. Quando se fala das cinco colinas de Lisboa… Kigali terá mil.

É uma cidade que se estende, parece que nunca mais acaba. Está-se no topo de uma colina e pensa-se que se tem a cidade aos pés e afinal trata-se de apenas mais uma elevação, a que se segue outra, e outra.

De noite pode-se andar quilómetros e o luzeiro no horizonte nunca acaba, como um céu estrelado na terra.

É uma cidade estranha. Tirando os subúrbios é como que Europa em África, oferecendo um bónus: é totalmente segura. Tão totalmente como se pode ser seguro. Já terá acontecido, mas é aparentemente impensável ser-se vítima de um crime violento, seja lá a que horas for.

Por todo o lado há um zumbido de motociclos. São a espinha dorsal do transporte no Rwanda. O serviço de moto-táxis é uma permanente, seja na grande cidade seja na província. E assim as avenidas são dominadas por estes pequenos insectos motorizados.

Foi por aqui que andei, pontualmente, durante alguns dias. E digo pontualmente porque o tempo passado em Kigali foi de preguiça, de recuperação de energia. Saí um pouco todos os dias, mas não mais do que o necessário para arejar e ver os pontos que fui colocando na lista.

Hoje, por exemplo, nem estava previsto. Tinha pensado em passar o dia em cima da cama, apenas isso. Mas a meio da tarde uma mensagem veio desinquietar-me. O Blaise chamava-me para ir ao futebol. Já estavam à porta mas podiam esperar por mim.

Foi o tempo de agarrar no básico, sair para a rua e subir para uma moto. 1.000 RWF, 0,70 Euros, uns 5 km. Encontro-os na entrada principal do estádio, o meu bilhete já comprado.

É um belo estádio, palco de actuação da seleção nacional do Rwanda e de algumas equipas das imediações. Hoje, frente a frente, a segunda classificada do campeonato, a equipa do Exército, e a terceira, uma formação sudanesa, que devido à guerra no seu país se integrou na liga do Rwanda juntamente com uma outra.

O estádio não estava muito cheio, mas foi um pedaço de tarde bem passado. No fim, um 0-0 não satisfazia os apoiantes da equipa da casa, até porque foi anulado o golo que lhes daria a vitória, um incidente que lançou o caos no estádio durante longos minutos, com uma segunda volta depois do apito final.

Blaise e esposa

Depois do jogo seguimos para o Kurry Kingdom, para um jantar também com a mulher do Blaise. Mais um manjar dos deuses que me deixou a rebentar pelas costuras.  O dia estava a acabar assim como a minha passagem pelo Rwanda, que deixará saudades. Foram dias felizes, repousados, num país que sem ser fantástico para viajar é bonito e inegavelmente interessante.

A realidade do Rwanda é o case study de sucesso africano. A explicação poderá encontrar-se na presença de dois factores que se aliaram para construir um país moderno, afastado dos estereótipos de África: miséria, sujidade, corrupção, disfunção, inépcia. Nada disso ali existe. E o que aconteceu ali afinal? Primeiro, um influxo imenso de verbas injectadas no país. Depois, uma liderança que não se deixou tentar por uma ganância desmedida. Sim, é pouco provável que o presidente do Rwanda e a sua descendência venha um dia a deixar de ser rico. Mas soube criar o seu império sem esquecer o povo. Guiou com pulso de ferro o Rwanda, fez aproveitar os fundos que chegavam do Ocidente e sobretudo criou uma marca de sucesso: o Rwanda, admirada por nacionais e estrangeiros, referida como exemplo, apontada como milagre.

Para fechar o dia, mais futebol: a final da Taça das Nações Africanas, na TV, com muito entusiasmo e emoção, acompanhada por duas belas canecas de cerveja. E depois, a despedida. O Karim leva-me ao aeroporto na sua pequena moto, um percurso relaxante que apreciei até ao fim. O fresco da noite, a falta de trânsito, a condução cuidada do meu amigo, a qualidade do piso. 6 km de deleite antes de entrar para o aeroporto e esperar pelo voo das 3:40 para Nairobi, escala para Bujurumba, Burundi. Aqui tão perto mas, de fronteiras terrestres fechadas, apenas acessível por via aérea e indo primeiro ao Quénia.

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