16 de Janeiro de 2026

De volta a Kigali depois de duas noites passadas no sul. Os nossos amigos não estão à vista quando saímos. Deixo a chave na mão de alguém que me olha como se eu fosse um macaco de duas cabeças. Outra vez. O pessoal deste alojamento é decididamente estranho.

Foi uma grande escolha. Saio para a rua e noto de novo a sua beleza, a sombra total oferecida pelas árvores frondosas localizada em ambos os lados da via, o piso feito de um empedrado cinzento e a calma reinante, o silêncio.

Até ao terminal de transportes são uns 300 metros. O recinto está bem organizado, é fácil encontrar o que se precisa. Desta vez procuro por uma ligação expresso – ou seja, que só pare nas paragens designadas como tal, e rapidamente – para a capital. Há várias opções. Vamos com a Volcano. O mesmo preço que a Horizon. 3424 FRW. Outra característica dos expressos é que saem a horas marcadas, não quando a viatura está cheia. No caso, 9:30. Perfeito.

Será uma viagem confortável, com vista para a bonita paisagem do Rwanda. Dos países visitados neste pequeno périplo na África Oriental, será o mais formoso, com as suas colinas sem fim, o verde dominante, as culturas variadas, o casario digno e pitoresco.

Pela janela passam campos de girassol em flor, vales repletos de arrozal, montes com faces cobertas de cafeeiros ou de cházeiros. Ao longe vêem-se talhões mistos, com misteriosas culturas a brotar nuns, enquanto outros mostram apenas o castanho avermelhado de uma terra fértil pronta para receber a próxima semeadura.

No Rwanda, a pobreza, se existe, não se deixa mostrar, e muito menos a miséria. Quem sabe o que se esconde em paragens remotas, afastadas das vias de comunicação… mas à vista de quem circula nas estradas principais, apenas habitações que serão modestas mas que respeitam as condições que concebemos como adequadas à vida humana.

Três horas depois estamos a entrar em Kigali. Ali sim, a estação de autocarros é caótica. Mesmo para entrar forma-se uma fila. No seu interior é o fim do mundo. Tudo engarrafado, até que o condutor autoriza o desembarque dos passageiros, que logo são engolidos por um mar de ajudantes, taxistas, bagageiros, engajadores, comissionistas, vendedores.

A mim calhou-me em sortes um tal de Moise, que já me tinha marcado como sua coutada pessoal, ainda o pequeno autocarro aguardava a entrada no recinto. Logo me indica os táxis. Segue-se a negociação do costume. Para o aeroporto, 25.000, que acabam nos justos 15.000.

Divide-se aqui a trupe de viagem. Ela regressa a casa, eu, tenho ainda uma semana na região. O meu destino é mais modesto e fica rematado por 8.000, descendo do valor inicial de 10.000.

Regresso ao Kurry Kingdom, ao quarto onde tínhamos ficado à chegada ao Rwanda. Gosto deste sentir de voltar, de rever terrenos conhecidos. O Karim dá-me a chave do quarto.

Descanso um pouco antes de sair para descobrir alguns pontos de Kigali que me interessam. Saio do complexo do restaurante e um taxista de modos delicados pergunta-me se preciso dos seus serviços. Talvez, é uma questão de preço. E esse faço-o eu. 8.000. OK. E para onde? O Memorial aos Soldados Belgas? Não conhece. OK, e Camp Kigali? Isso sim, conhece. Então pronto.

Gosto dele. Pergunto-lhe se no Domingo me quer levar ao aeroporto. Vamos chegando ao destino. Ele não sabe bem o que procuro e tem relutância de me largar antes do ponto exacto ser encontrado. Fico com o seu contacto, chama-se John, e recomendo a quem quer que venha para estes lados: o prefixo do Rwanda e depois 782 664 951.

A entrada para o memorial não é imediatamente perceptível mas está lá. Na dúvida é perguntar a um dos guardas armados que sempre andam pela área.

Então e que memorial é este?

O Belgian Peacekeepers Memorial situa-se no antigo Camp Kigali e está ligado a um episódio do início do genocídio contra os Tutsi, em Abril de 1994.

Na noite de 6 para 7 de abril de 1994, após o abate do avião presidencial que transportava Juvénal Habyarimana, o plano genocida começou a ser posto em prática. Um dos primeiros alvos foi a primeira-ministra Agathe Uwilingiyimana, uma figura moderada que defendia a implementação dos acordos de paz. Dez paraquedistas belgas da UNAMIR estavam destacados para a sua proteção. Na manhã de 7 de abril, a guarda presidencial ruandesa cercou a residência da primeira-ministra; os soldados belgas foram desarmados, separados da protegida — que acabaria por ser assassinada — e levados sob custódia para o Camp Kigali.

No quartel, os dez militares foram detidos num edifício militar e, ao longo de horas, brutalmente espancados, torturados e mortos por membros das forças governamentais. Ou pelo menos esta é a história contada nos canais oficiais. O guardião do memorial apresenta-me outra versão, que faz mais sentido perante o que se vê no local.

Diz-me que os belgas foram de facto trazidos para o local, já desarmados, mas que tinham escondidas consigo duas pistolas, que usaram para se refugiar no pequeno edifício que hoje faz parte do memorial. Ali mantiveram em respeito os soldados do governo, o que explica as abundantes marcas de impacto na fachada. No interior, a um canto, fitas com as cores da Bélgica, flores e outros objectos marcam o ponto onde alguns militares tombaram depois de uma granada arremessada pela ter explodido. E de facto as marcas dos estilhaços são bem claras na parede interior.

O assassinato não foi apenas um crime de guerra: teve um impacto político imediato e devastador. A Bélgica, numa atitude miserável, decidiu retirar as suas tropas da UNAMIR, o que deixou a força de paz praticamente impotente no momento em que o genocídio se intensificava em todo o país.

O memorial foi inaugurado em 2000 no próprio local onde os soldados foram mortos. No exterior erguem-se dez pilares de pedra, um por cada militar, com entalhes que simbolizam os poucos anos de vida de que cada um pôde usufruir.

Entretanto estava-se no final da tarde. O calor do dia ia-se e estava muito agradável para caminhar. Fui dali a pé em direcção ao Hôtel des Mille Collines, o verdadeiro estabelecimento que inspirou o famoso filme Hotel Rwanda, de 2004.

Para quem não viu, o filme conta uma história inspirada em factos reais. A personagem principal é Paul, um Hutu casado com uma mulher Tutsi. Como gerente do hotel, tem contactos com oficiais do regime, militares, empresários e estrangeiros, e usa pequenas negociações, favores e subornos para manter o hotel a funcionar. Quando o avião do presidente Habyarimana é abatido e o genocídio começa, a cidade mergulha rapidamente no caos.

O Hotel des Mille Collines transforma-se num refúgio improvisado. Paul começa por proteger a própria família, mas acaba por acolher centenas de pessoas perseguidas, que se amontoam nos corredores, quartos e salões do hotel. Sem armas e sem poder formal, ele usa tudo o que tem à disposição: diplomacia, promessas vazias, bebidas, dinheiro, chamadas telefónicas para contactos internacionais e uma leitura cuidadosa do medo e da corrupção dos responsáveis locais. O hotel torna-se uma ilha frágil de relativa segurança num mar de violência extrema.

O filme mostra também a falência da comunidade internacional. As tropas da ONU, com mandato limitado, não intervêm para travar os massacres e acabam por evacuar apenas estrangeiros. No fim, após semanas de tensão, ameaças constantes e negociações desesperadas, os refugiados do hotel conseguem finalmente sair sob escolta, à medida que a Frente Patriótica Ruandesa avança e o genocídio começa a perder força em Kigali.

Visto o local, aconcheguei-me num cantinho à espera de uma moto-táxi livre para voltar a casa. 2.000 RWF, mas tive que indicar o caminho ao jovem.

No Kurry Kingdom o meu querido anfitrião sentava-se com um outro convidado, um jovem também indiano. Convidado para me juntar a eles, comi os deliciosos petiscos que acabavam de chegar à mesa, regados com um belo chá Masala. Por fim despedi-me, com a promessa de regressar à mesa para jantarmos juntos. E que banquete foi!

O que se espera de um jantar com o dono de um dos melhores restaurantes indianos que se possa imaginar e que adora comer?

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