18 de Janeiro de 2025
Depois de uma noite passada entre voos e escalas, evidentemente sem espaço para dormir para além de um dormitar instalável a bordo dos aviões, aterrei em Bujurumba, maior cidade do Burundi e sua antiga capital. A visita a este país seria curta, apenas um par de noites, que seriam passadas com um anfitrião de Couchsurfing.
Primeiro porque tive que distribuir os dias desta viagem por África entre diversos países e cidades e também porque o Burundi não era especialmente rico em propostas para um viajante. Além disso não é país onde a comunicação seja simples. Raras pessoas falam inglês e mesmo o francês, língua europeia do colonizador não é utilizada.

Tal como combinado o bom do Hervé esperava-me à saída do terminal. Um tipo inicialmente formal e tímido, com quem acabei por estabelecer uma boa relação e com quem me mantenho em contacto. Trabalha num banco e veio-me buscar no intervalo do almoço. Tempo certo para regressar ao centro e me deixar depois de me negociar um SIM card para assegurar a comunicação ao longo do dia e me dar o conforto da informação pronta. Depois, deixa-me à minha sorte, com umas indicações gerais e segue para o escritório.
O dia não está brilhante. Cinzento, depressivo, tristonho, com chuva miúda que vai caindo de vez em quando. Passeio pelas ruas de uma cidade pouco atraente. Sem sobressaltos, não há ameaças como nas grandes capitas vizinhas, mas também sem entusiasmo. Vou caminhando, vagamente rumo a um café recomendado pelo Hervé que acabo por encontrar.

É de facto um lugar agradável, chama a si uma clientela intelectual, proveniente da magra classe média da cidade. Sento-me, descanso um pouco, mato este tempo excessivo que tenho. Encomendo uma massa à bolonhesa para matar a fome, serve bem, está até bastante boa. Mas não posso ficar ali para sempre, chega a hora de sair, sem saber bem para onde.
Vou passeando, ando e ando, sem rumo, observando, mas sem nada para realmente ver. É uma cidade comum. Lojas, pessoas que vão e vêm, carros que passam, casas e prédio, tudo numa normalidade entendiante.

Passo por uma mesquita, saltitando entre poças de água suja que se acumula no piso. Vejo um contentor transformado em barbearia. O fim do dia de trabalho aproxima-se do fim, já se notam mais cidadãos nas ruas. Atravesso um terminal de autocarros urbanos onde se formam filas organizadas de pessoas que se dirigem para casa.
Não me prestam muita atenção. Não há muitos brancos na cidade, mas são os suficientes para não me fazerem passar por uma raridade. São sobretudo residentes, gente que trabalha em ONG’s e nas embaixadas, não tanto turistas.

A luz começa a esmorecer, sente-se o aproximar do por-do-sol. Dou comigo a caminhar para a margem do lago Tanganika, que banha uma boa parte da cidade. Vejo no Google Maps uma referência a um bar restaurante que não fica longe e tomo-o por objectivo. Chego e gosto do que vejo. Um primeiro andar feito em madeira, pobremente iluminado com algumas lâmpadas que têm que fazer as despesas da casa já que a noite chegou e como sempre nestas latitudes transforma o dia em escuridão num ápice.
Peço uma cerveja gelada que me sabe maravilhosamente, sinto-me bem, descanso o corpo, observo as pessoas enquanto espero pelo Hervé que se me vai juntar. Bebemos uma bebida juntos, conversamos um pouco. Ele sugere um restaurante na sua zona, uma coisa fina junto à praia, um local para os privilegiados de Bujurumba.

Não me agrada. Olho para o menu e vejo preços a rondar 25 Euros por prato, o espaço vazio, morto, artificial. Ele sente a minha onda, vamos embora, vamos para casa.
Mas a conversa está boa. O Hervé é um tipo interessante, culto, que fala fluente francês e inglês, para além da sua língua nativa, e fala-me da história do país, da situação política e económica, dos atritos étnicos, das razões do relacionamento complicado com os países vizinhos, especialmente o Rwanda. Aprendo imenso.
A casa dele parece um palácio, mas é uma prenda envenenada: foi construído num terreno que se torna num lago quando chove um pouco mais. Para entrar das duas uma: ou se encosta o carro milimetricamente ao patamar e se salta para a segurança da zona seca, ou é preciso colocar as pernas quase até ao joelho.
Lá dentro a humidade é muita, especialmente no quarto que me está destinado. Tudo bem, já dormi em muito piores condições.

O jantar foi divinal. O Hervé prepara uma mesa com petiscos diversos, uma variedade linda, incluindo uma tigela enorme cheia de doces pedaços de manga, pão, queijos, saladas, bolachas, doces e muito mais. Na simplicidade encontrou-se a perfeilão, uma refeição que ficará para a memória, acompanhada pela continuação das agradáveis conversas que vinham de antes.
Nessa noite, depois da miséria da véspera, dormi maravilhosamente, apesar do calor, dos mosquitos e da humidade.
