19 de Janeiro de 2025

Cheguei a um dia grande desta pequena viagem por África. Vir ao Burundi, um país internado no continente africano, com relações complicadas com o vizinho Rwanda, fronteiras terrestres fechadas, tinha sido um capricho… já que estava ali… ia meter os pés num novo país. Mas não só! É verdade que o Burundi não tem pontos de interesse turístico evidentes mas há algo espectacular: o santuário  de tambores reais de Gishora.

Os Tambores Reais do Burundi são uma das tradições culturais mais emblemáticas do país. Em Gishora, perto de Gitega – a nova capital do país, escolhida precisamente pela simbologia histórica -, os percussionistas reúnem-se em torno de enormes tambores, tocando ritmos complexos acompanhados por dança, movimentos acrobáticos e saltos. A tradição remonta à época dos reis do Burundi, quando o tambor tinha um significado sagrado e simbolizava o poder e a autoridade do monarca.

Ainda hoje, uma apresentação dos tambores de Gishora é uma experiência particularmente impressionante, tanto pela força do som como pela energia e coordenação dos percussionistas. A dança ritual do tambor real foi inscrita pela UNESCO na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2014. E era aqui que me dirigia neste segundo e último dia no Burundi.

O Hervé, na sua boa natureza, tinha-me levado pela manhã ao lugar onde partiam carros para fazer o percurso. Negociou um preço com o motorista, instalei-me à frente e fomos em busca de outros clientes até que a viatura se encheu. Depois, em modo expresso, até Gitega.

São cerca de 100 km, duas ou três horas de estrada, geralmente feita de piso em bom estado mas com algum trânsito pesado, que corresponde a muitas ultrapassagens, passagens por povoações, troços sinuosos. É uma paisagem excelente, com um verde intenso a servir de pano de fundo, agregados urbanos cheios de vida e cor, tudo muito cuidado e limpo. Só pela viagem a ida a Gitega já valeria o custo e o tempo de viagem.

Chegamos à cidade. Entramos num terreiro vedado, parece ser o parque de estacionamento de um hotel, e o serviço termina ali. Tento perguntar ao motorista se devo comparecer no mesmo lugar para procurar transporte de regresso mas a comunicação não é fácil. Diz que sim, mas um sim porque sim, pouco convincente e de facto umas horas depois lá apareci e por ali não me safei.

O que foi convincente, e muito, foi o fausto pequeno-almoço que tomei na sala de refeições do hotel, claramente muito popular entre os locais com poder de compra. Homens com aspecto de quadros superiores, funcionários do governo em boa posição. Sozinhos ou em pequenos grupos, partilhando o espaço comigo enquanto me deliciava com tudo o que tinha pedido, que era muita coisa por pouco dinheiro.

Com o estômago muito bem composto fui dar uma volta pela cidade que é ainda menos interessante do que Bujumbura. Lá encontrei o caminho até ao mercado central, mas antes de lá chegar vi um aglomerado de motoboys e decidi tratar já do que ali me havia trazido.

Logo fui rodeado por um grupo de rapazes montados nos seus veículos, fixei-me num que me inspirava mais confiança e fizemos logo negócio. O que ele não sabia nem tinha ouvido falar, era do santuário de tambores. Surpreendeu-me. Mas com a ajuda de todo o grupo lá se chegou à conclusão do que eu procurava.

Uma pequena viagem de poucos quilómetros muito relaxante, montado na mota que parecia deslizar naquele bom asfalto, sentindo o vento agradavelmente fresco em todo o corpo e, claro, sempre a usufruir daquela paisagem verdejante.

O Hervé tinha-me dado uma ajuda extra, telefonando para o santuário, certificando-se de que não iria em vão e confirmando o preço. Pago em moeda local, num valor a rondar os 60 Euros. Noutros tempos seria uma fortuna que não daria, mas com a idade passei a dar-me a certos luxos, como largar uma quantia assim por um espectáculo de uma meia-hora. O valor é fixo. Sejam 15 pessoas ou 1. Ou seja, se for um grupo a coisa fica em conta, mas a viajar sozinho tive que alombar com a despesa por inteiro. Ainda não sabia, mas aquele maço de notas foi dos mais bem empregues das minhas andanças pelo mundo.

Ali ninguém falava inglês, apenas a língua local e, no caso do director, um pouco de magro francês. Paguei-lhe, sob o olhar assombrado do meu condutor que eventualmente nunca teria visto tanto dinheiro junto. Enquanto um membro da equipa me mostrava algumas coisas para me entreter, a trupe preparava-se para o espectáculo.

E que espectáculo! Durante 30 ou 40 minutos o grupo de percussionistas proporcionou-me uma experiência única. Extraíam som dos seus tambores enquanto ensaiavam coreografias surreais, desempenhando diversos papéis. Sentia-me um pouco sufocado, sabendo que o espectáculo era exclusivo, tudo aquilo para mim, o olhar de todos os artistas fixos em mim, os movimentos tendo-me como centro… mas depressa me habituei e deixei-me levar pelo momento, fotografando e filmando e simplesmente apreciando o espectáculo, tudo ao mesmo tempo.

O som, a cor, aquele mergulho numa África genuina de outros tempos, os movimentos ritmados de toda a trupe, que incluía um rapaz muito jovem e um senhor já idoso. Tudo contribuiu para uma imersão sensorial total. Da qual despertei apenas quando muito mais tarde o espectáculo foi dado como terminado.

Agradeci a todos, rodeado pelos elementos do grupo que me rodeavam para a despedida, dispensei com diplomacia a banca de venda de recordações que tinha sido montada para mim, pus-me na mota e fizemos o caminho de regresso. O jovem, certamente inspirado pela visão do tesouro que acabara de ver sair-me das mãos, já falava de um preço mais alto. Por causa da espera, e isso. Mas conformou-se sem resistência à negativa, até porque de facto já não tinha muito dinheiro. Fora trocado mais ou menos à conta, apenas para dois dias e contando com a despesa extraordinária do espectáculo e agora tinha que racionar.

Voltei à sala de refeições do hotel, bebi uma cerveja gelada, fazendo tempo enquanto começava a pensar como chegaria a Bujurumba. Não foi especialmente fácil. Como disse a comunicação no Burundi não é das mais fáceis. Ali no parque onde me tinham deixado de manhã não se passava nada. Saí para a rua, e as pessoas lá me iam dando indicações – sempre contraditórias – sobre como apanhar transporte para Bujurumba.

Por fim, quando já me começava a preocupar – até poqrque o Hervé, à distância, continuava a ajudar telefonando a vários condutores que faziam o percurso mas sem sucesso  – apareceu uma carrinha. A que eu precisava. Ainda esperei muito tempo até que o condutor considerasse os passageiros em número suficiente mas acabou por acontecer. Seguia viagem e em breve estaria com o meu amigo.

A viagem de regresso foi tão agradável como a de ida. A mesma rota, as mesmas vistas, o mesmo tempo. E nada de muito especial aconteceu até ao final do dia. Repetiu-se o mesmo jantar delicioso da véspera, boa conversa, até que me retirei para relaxar depois de um dia intenso e muito completo.

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