Acordei portanto nada bem, depois daquela noite agitada que meteu tiros e tudo. A segunda vez em dez dias que disparam uma arma ao pé de mim. A primeira tinha sido no Haiti, junto à estrada. Dessa vez, a polícia. Agora, simplesmente alguém.

Mais um dia que começa sem eu saber onde vou ficar. O meu anfitrião de Couchsurfing em Santo Domingo, para os dois últimos dias desta viagem, falou-me em Cabrera. Las Terenas parece ficar fora de questão. Fim-de-semana, impossível encontrar alojamento aceitável em toda a península de Samaná. Portanto, aplica-se igualmente a Las Galleras. Parece que Cabrera será.

Tal como aconteceu para esta noite, encontro à última da hora um anúncio interessante no AirBnB e faço a reserva. Não é extremamente barato mas é um apartamento inteiro. Parece de qualidade, depois da noite agitada sinto que preciso de algum conforto, um mimo. A esta decisão ajuda ter encontrado o local da partida de autocarros que vão naquela direcção, ou seja, para Puerto Plata, sempre encostado à costa, com paragem em Cabrera.

Fecho a mochila, abro o cadeado da porta, saio, fecho-o e vou entregar a chave à vizinha, tentando não pensar o que fazer se a senhora não estiver em casa. Mas está e fica entregue.

Vou investigar os horários. Tenho uma partida para dali a quase duas horas, tenho tempo.  Compro uma barra de dulce de leche logo ali num quiosque. Compro um ananás. O senhor faz-me um preço para três, mas quando lhe explico que vou viajar e não posso levar tanta carga acede a vender só uma peça, que escolho da pilha amontoada na caixa da sua carrinha.

Procuro um lugar para passar algum tempo e tomar uma bebida fresca. Vou encontrar uma esplanada a abrir no passeio junto à água. É mesmo isto. Peço uma Coca-Cola, sento-me a tomar notas à laia de diário, que a memória já não é o que era. Está-se ali bem. O dia está magnífico.

Um ananás por companhia para as minhas notas diárias

Eventualmente chega a hora de começar a caminhar para a estação. De dizer adeus a Samaná. Foram menos de vinte e quatro horas, mas foi tempo bem passado. Uma boa decisão, apesar de tudo, esta de pernoitar nesta pequena cidade.

Chego, ainda falta uma meia hora. Confirmo com o pessoal, sim, é para espera ali. Passa o tempo, nada de autocarro. Impaciento-me. Não me convinha falhar este transporte para Cabrera. Vem um, não é o meu. De repente o senhor que está ali a coordenar as operações começa a chamar, aponta um mini-bus do outro lado da rua. É aquele. Imagino que venha de outro lado qualquer, já tem passageiros. Os primeiros estrangeiros, viajantes, que encontro num transporte público na República Dominicana. E logo duas alemãs que não se calam. Falam, e falam e tagarelam e aquilo mexe-me com os nervos. Logo esta língua de que não gosto nada. Uma das poucas línguas por esse mundo fora cuja sonoridade me irrita.

Adeus Samaná!

Coloco os auriculares, música dominicana no máximo e cabeça quase de fora da janela. Que viagem maravilhosa! Serão umas horas assim, a ver a paisagem desfilar, muitas vezes correndo mesmo junto ao mar, florestas de palmeiras, vento na face, janela bem aberta.

Ambiente descontraído, boa condução, sempre a bombar, sem exageros. Paramos para o condutor e o ajudante comerem. Os passageiros optam todos por esperar na viatura.

Passamos por praias com amplos parqueamentos. Não estão cheios mas encontram-se bem compostos. É Domingo, as pessoas vão à praia.

Uma viagem em grande!

Ao longo do caminho paramos em algumas estações, nas localidades principais. Fora isso o autocarro detém-se quando alguém faz sinal, para sair ou para entrar.

Chegamos a Cabrera, sigo no Google Maps a localização da casa onde vou ficar e quando me parece que estou mais perto digo que quero descer.

Está feito. Agora é caminhar. Sempre em contacto com as pessoas com que vou ficar, que me dão indicações. Custou mais foi, encontro o local num beco afastado da rua principal.

Ainda a caminho a paisagem desfila.

Recebe-me a Rhina, a proprietária, e o filho, Wilkins, que vive metade do ano aqui e a outra no Alasca com a sua esposa norte-americana. O seu inglês é perfeito. Pela primeira vez nesta viagem tenho comunicação a 100%. Dá-me uma catrefada de informação preciosa.

A casa é adorável. Um apartamento enorme, com um quarto espaçoso, sofás, uma casa de banho moderna com um duche bem quentinho e potente, uma cozinha bem equipada. Foi uma escolha em cheio. E o Wilkins que me vai dando ideias. O que fazer, onde ir, como funcionam as coisas, supermercado, restaurante, praias nas imediações, o farol em ruínas que eu queria visitar (uma dica do tal anfitrião do Couchsurfing) mas que afinal está um bocado fora de mão.

Ao virar da esquina, em Cabrera

Relaxo, aproveito o momento, desfruto do conforto daquele belo apartamento. Mais tarde conversarei mais com o Wilkins. Pergunto-lhe se conhece alguém na Caribe Tours de Cabrera. Conhece. A senhora que vende os bilhetes. Perfeito, é mesmo isso. Peço-lhe para se informar se eles vão pedir o certificado da vacina de reforço, como manda a lei dominicana a partir do dia seguinte. Mais tarde ele manda-me uma mensagem. Não vão pedir nada disso. Que rico país, assim é que eu gosto. O Estado não faz farinha com os cidadãos por aqui.

Passado um bocado saio para conhecer a localidade. Parece-me bem acima da média para a República Dominicana no que toca a nível de vida. Diz-me depois o Wilkins que assim é, por ser um local muito procurado por dominicanos que viveram no estrangeiro e regressam à pátria.

Junto ao mar

Vou até ao mar, percorro o Malecon, decepcionante. Não é mais do que umas poucas centenas de metros de estrada que corre junto ao mar. Vou à procura do caminho para uma praia de que ele me falou e vou encontrando a rota certa sem grandes dificuldades. Deixo as ruas para trás, sigo por um trilho no meio da natureza, depois chego de novo aos penhascos oceânicos, caminho junto a casas de luxo.

É um passeio tranquilo. Muito silêncio, só se ouve o mar. Não vejo ninguém, sou só eu por ali. Encontro a praia. Nem uma pessoa. Desço até à areia, sento-me um pouco a descansar e a apreciar o local.

Depois inicio o caminho de volta. Está muito calor, tenho suado bastante, preciso mesmo de uma cerveja gelada. O café-restaurante que tinha visto à ida está cheio de gente mas uma corrente com um sinal a dizer “Encerrado” impede-me a entrada.

A tal cervejinha gelada bebe-se aqui

Prossigo. Encontro outro, entro e compro a minha cerveja. Não é barata mas é merecida. Sento-me na esplanada. Está-se muito bem. O final da tarde aproxima-se, o pico do calor já passou e os locais começam a sair à rua para o seu passeio. Vão parando carros, as pessoas entram, compram uma cerveja, sentam-se por ali ou junto ao mar.

Na estrada passam motas, bicicletas, peões. Muita vida local, um desfrute colectivo do que Cabrera tem para oferecer. Gostei.

Agora vou andando até ao supermercado que o Wilkins indicou, mas encontro-o fechado. Bem, então jantar. É mais à frente. Como tão bem! Carninha de frango com molho de natas, delicioso, bem cozinhado. Adorei a refeição, gostosa e descontraída, num restaurante tranquilo.

E pronto, regresso a casa para passar um serão descontraído.

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