1 de Dezembro de 2026
Pela manhã, antes de nos fazermos à estrada, uma paragem no centro de Néma. A rapaziada da organização precisava de fazer umas compras e aproveitámos para sentir o interessante ambiente da praça do mercado e redondezas.
Lá em cima o céu estava cinzento, ameaçando até com uns chuviscos ligeiros. No terreno aberto que funcionava como centro da povoação, onde chegavam e partiam autocarros e outras viaturas de transportes públicos e em redor do qual se dispestavam estabelecimentos comerciais, tivemos um estranho encontro.
Numa das lojinhas que se alinhavam num dos flancos do quadrado, tinha Omar o seu estaminé de açougue. Entre nacos colocados em cima do balcão e outros ainda maiores pendurados no tecto, lá estava ele, sorridente. E o que tinha Omar de especial? Falava fluentemente português. Alguém me explique este milagre de aprender uma língua de carolice, apenas porque era o idioma de Cristiano Ronaldo, e obter o grau de fluência, porque eu não consigo entender.
Ainda para mais sem um sotaque de parte alguma. Português limpo, com que conversámos brevemente, com prazer mútuo. Ele por conhecer alguém real com quem practicar, e nós, embasbacados com o fenómento.
Terminadas as compras, para a estrada. A caminho de Oualata. Bom, quer dizer… não foi bem para a estrada, porque não a há para o nosso destino. E se até agora o condutor Havel tinha tido um trabalho limpo e um companheiro que enriquecia a viagem, foi neste dia que percebemos todo o seu valor.
Pelo nosso plano a sequência da viagem não seria possível. Para chegar de forma decente de Néma a Oualata haveria que dar uma volta de centenas de quilómetros. Mas ele afirmou-se, garantiu que seria possível seguir em linha quase recta e chegar a Oualata. E se bem o disse, melhor o fez.

A manhã foi passada a abanar os ossos. Não me lembro quem ia no lugar da frente, mas quem fosse teve sorte. Depois de uma disputa com o Sidi nos primeiros dias sobre o privilégio de seguir viagem naquele posto priviligiado, com mais espaço e boas vistas, acordámos ir rodando, às metades dos dias.
Ao volante Havel parecia um mago, adivinhando sem qualquer ajuda tecnológica o caminho a seguir, num troço verdadeiramente em todo o terreno, sem qualquer trilho ou marcas de rodado.
Pelo caminho, momentos de deleite que na altura pareceram insignificantes. Pequenas aldeias, isoladas do mundo exterior, sem qualquer acesso por estrada, mas provavelmente cheias de significado para o nosso condutor e navegador que devia conferir com a sua presença a certitude da rota.
Vemos poços, tesouros nesta terra árida, onde as caravanas de camelos se detêm para que humanos e bestas matem a sede. Era assim outrora e ainda o é hoje, porque as rotas comerciais com longas filas de camelos carregados se mantêm, como se o tempo não tivesse passado por aqui.
Paramos num lugarejo para comprar refrescos e guloseimas na venda local. Despertamos a curiosidade das pessoas, mas nunca em toda a viagem isto sucedeu de forma a se tornar excessivo. As pessoas tentam disfarçar a curiosidade e quando não conseguem fica apenas um sorriso, um comentário entre amigos que compreendemos ser-nos dirigido ou mesmo um início tímido de conversa.
Chegamos a Oualata cedo. É a primeira vez que nos acomodamos com tempo, ao início da tarde. Hoje teremos a oportunidade de relaxar e de apreciar o local em detalhe. E se o merece! Oualata foi talvez o ponto alto da viagem!
Ficamos alojados numa casa tradicional. Todos no mesmo espaço, uma espécie de quarto escavado na rocha, com piso de areia. Delicioso!
Demoramo-nos um pouco ali. Largar as mochilas, descobrir os cantos à casa, subir ao terraço, que parece a muralha de uma praça-forte. A propriedade tem todos os traços das casas históricas de Oualata, as paredes pintadas num ocre avermelhado, decoradas com os complexos temas ousados na aldeia.
Esta é claramente uma povoação histórica, um ponto chave nas antigas rotas das caravanas, ganhando importância redobrada pela proximidade da fronteira com o Mali.
Faz parte do conjunto histórico classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, juntamente com Chinguetti, Tichitt e Ouadane. As casas são construídas principalmente em adobe, com tonalidades naturais que variam entre o vermelho, o rosa e o ocre, criando uma paisagem urbana muito característica, adaptada ao clima seco e ao calor intenso, com ruas estreitas pensadas para gerar sombra e manter os interiores frescos.

O que torna Oualata particularmente especial dentro da arquitetura mauritana é a decoração interior das casas, uma tradição artística mantida sobretudo por mulheres e transmitida entre gerações. As paredes internas, especialmente nas salas de receção de convidados, são decoradas com padrões geométricos muito precisos e repetitivos, feitos com pigmentos naturais.
As cores mais comuns são o vermelho escuro, o branco, o preto e por vezes o amarelo ocre. Estes desenhos são abstratos e simétricos, refletindo tanto influências saarianas como sahelianas, especialmente do Mali, e também a tradição islâmica que privilegia padrões geométricos em vez de figuras humanas ou animais.
A decoração não tem apenas função estética, mas também social e simbólica. Uma casa bem decorada pode indicar estatuto social, cuidado doméstico e habilidade artística da mulher responsável pela casa. Muitas vezes a pintura é renovada em momentos importantes, como casamentos ou grandes eventos familiares, funcionando como um sinal visível de renovação e prestígio.
No exterior, a decoração é geralmente mais discreta, podendo aparecer em molduras de portas ou em partes da fachada, mas o verdadeiro trabalho artístico encontra-se normalmente no interior, criando um contraste entre a simplicidade externa e a riqueza visual dos espaços privados.

Tudo isto aprendi no decorrer da visita guiada pela cidade antiga, parcialmente destruída pela força da natureza, que desloca areias de forma maciça, colocando uma pressão irresistível nas casas que têm que ser abandonadas.
Esta visita é obrigatória, e custará algum dinheiro que naturalmente não nos é pedido. O que no final o que o guia nos pede directamente, são medicamentos. Foi a primeira mas não a última vez que alguém nos pediu Iboprofeno ou Paracetamol.
O passeio foi fabuloso. As ruas de Oualata são um manancial infinito de fotografia. Sobretudo dos temas decorativos e da arquitectura. Pessoas, nem por isso, que o bairro está quase desabitado, apenas resistindo algumas famílias.
Visitamos uma madrasa, onde uma turma de meninos com aspecto de gatos acossados vai aprendendo qualquer coisa com um professor com pinta de mandrião que nos recebe com indolência, dando-nos autorização para fotografar, e que pôs a miudagem a recitar Corão para logo voltar às maravilhas do Facebook no seu telefone.
Cada criança tinha uma personalidade própria. Um jovem muito tímido vestia uma camiseta da Seleção Nacional Portuguesa, enquanto outro nos mostrava O Dedo enquanto recitava.
Visitamos um pequeno museu. Um par de salas onde foram reunidos velhos artefactos, numa colecção diversa com algumas curiosidades. De resto, as próprias instalações valem a visita, sendo, claro, uma casa histórica bem mantida.
A visita oficial acaba em frente à mesquita principal de Oualata. Foi grandiosa, mas agora é altura de relaxar, com tempo, pela primeira vez desde que iniciámos a viagem.
O jantar será ali mesmo, na casa. Cozinhado pelo idoso proprietário que faz tudo e ainda é envolvido em acessas discussões na casa de família, onde a sua voz é engolida pela gritaria das mulheres.
Ao serão, opta pela nossa companhia, sem uma palavra, deitando-se ao pé de nós no pátio, seguindo apenas conversas que não entende mas das quais parece retirar algum apaziguamento.













