3 de Dezembro de 2026
Pela manhã o clima tinha voltado ao normal depois do drama da véspera. De qualquer forma sentia que me queria afastar daquele local assim que possível. Estamos no deserto, o acordar é feito para o frio, não apetece sair do calorzinho do saco-cama. Mas vá, enfrentei o mundo, preparei rapidamente as minhas coisas. Por uma vez na vida tenho alguém para desmontar a tenda e a embalar. Luxos da viagem em tour.
Hoje foi um dia de muitos caminho e pouco lazer. Mas valeu! O Rocher de Makhrouga é uma maravilha geológica que deixa qualquer um fascinado. Encontra-se junto ao trilho que liga Oualata a Tichit. Este, está marcado como uma estrada no Google Maps, mas na realidade não é nada mais do que puro deserto com umas marcas de rodados, que mesmo assim apenas são visíveis a espaços. O resto fica entregue ao nosso génio da navegação em deserto, o homem ao volante, o incrível Havel.
A Elephant Rock, como é conhecida internacionalmente a formação rochosa, é composta de arenito, e como se imagina deve o nome à sua inconfundível semelhança com a silhueta de um elefante — uma massa que parece emergir do nada, em pleno deserto.
O processo que lhe deu a forma atual é o mesmo que esculpe tantas outras formações extraordinárias da Mauritânia: a erosão diferencial. O vento carregado de areia desgasta preferencialmente as zonas mais macias da rocha, deixando intactas as áreas de arenito mais compacto e resistente — o resultado, ao longo de milénios, é uma escultura natural de precisão improvável. Para além da formação principal, toda a paisagem envolvente é composta por inúmeras outras rochas de formas curiosas, com nichos e grutas naturais que a tornam num ambiente de exploração verdadeiramente singular.
Foi um gosto parar ali. O nosso pessoal brinca como crianças, correndo em redor da enorme rocha. Parte dela pode ser trepada, passando pelo túnel que a atravessa sensivelmente a meio e acedendo a uma espécie de rampa. Como em qualquer boa pausa, o Havel saca do seu kit de fazer chá. Essencial.
A uns 20 quilómetros encontra-se outro ponto de interesse, o chamado Finger Rock Es Sba, a partir do qual já é visível o Jebel Zeiga, também conhecido como Colosso de Zeiga — formando assim um conjunto de três marcos geológicos numa paisagem desértica praticamente intacta. Este segundo ponto não se compara à complexidade da Elephant Rock, que ficou na memória como um dos locais mais impressionantes desta viagem.
Entretanto o Havel enterra a Hiace outra vez na areia. Distraído com qualquer coisa, enfiou-a mesmo de frente numa mini-duna de areia. Uma hora a trabalhar para a tirar de lá. E é nestes momentos que me recordo do que tinha racionalizado mesmo antes de começar a aventura: fazer isto apenas com uma viatura é brincar com a sorte, ainda para mais sem um telefone por satélite.
Seguimos viagem. Passamos por acampamentos de nómadas e paramos para ver antigos poços que ainda hoje são usados para dar água aos camelos das caravanas que passam por ali sem dar pelo decorrer dos tempos. Tirando o pontual Hiace de algum nómada mais endinheirado, poderíamos estar ali há alguns séculos atrás e veríamos o mesmo.
Chegamos a Tichit já ao fim do dia. Paramos um pouco antes para observar um cemitério, com as campas semi-enterradas na areia. A luz vai escasseando, o céu fica carregado. Apetece descansar. Aqui, em Tichit, vamos encontrar as condições mais básicas de toda a viagem. O quarto é basicamente uma cela com um colchão no chão e uma casa de banho com uma sanita turca com um cheiro forte. Mas foi divertido.
Cai alguma chuva. Um grupo de miúdos observa-nos como se tivéssemos chegado de outro planeta. Sem pudores ficam à porta dos quartos, que está aberta para atenuar o calor acunulado durante o dia de sol. E assim foi o dia. A visita a Tichit ficará guardada para a manhã seguinte.









