Nos últimos anos, Valência juntou-se a um número crescente de cidades europeias que procuram responder às pressões do turismo de massas. A nova legislação aprovada representa um dos esforços mais significativos até agora para controlar a expansão do alojamento turístico e restabelecer um equilíbrio entre visitantes e residentes.

No centro das novas regras está um objetivo claro: limitar a proliferação de alojamentos de curta duração. A legislação estabelece limites rigorosos ao número de imóveis que podem ser destinados ao turismo, fixando um teto de cerca de 2% das habitações por bairro. Além disso, o número total de camas turísticas não pode ultrapassar uma determinada proporção da população residente. Estas medidas procuram evitar que determinadas zonas da cidade sejam completamente dominadas por alojamentos turísticos, uma realidade que tem vindo a transformar o mercado imobiliário em várias cidades espanholas.

A lei introduz também restrições espaciais. Os apartamentos turísticos passam a ser permitidos apenas em partes específicas dos edifícios, normalmente ao nível do rés-do-chão ou em pisos inferiores, e devem ter acesso independente a partir da rua. Esta exigência dificulta a conversão de edifícios inteiros em unidades turísticas e tenta reduzir os conflitos entre turistas e moradores. Uma vez atingidos os limites definidos, deixam de ser concedidas novas licenças, criando um verdadeiro bloqueio à expansão do setor.

Estas medidas surgem após anos de crescimento acelerado do alojamento local, impulsionado em grande parte por plataformas digitais. As autoridades defendem que a expansão descontrolada contribuiu para o aumento das rendas, a escassez de habitação disponível e a progressiva expulsão de residentes de zonas centrais. Assim, a nova legislação é apresentada não apenas como uma política de turismo, mas também como uma resposta a um problema habitacional.

Ao mesmo tempo, Valência segue uma tendência mais ampla na Europa. Cidades como Barcelona impuseram sistemas rigorosos de licenciamento e travões à criação de novos alojamentos turísticos. Amesterdão limitou o número de noites por ano em que uma casa pode ser arrendada a turistas, enquanto Lisboa congelou novas licenças em várias zonas centrais. Já Veneza foi ainda mais longe, introduzindo taxas de entrada e mecanismos de controlo de visitantes para gerir a pressão turística.

O caso de Valência distingue-se pela combinação de várias restrições num único quadro legal: limites de densidade, regras de localização e controlo da capacidade total. Na prática, abrir novos alojamentos turísticos torna-se cada vez mais difícil, sobretudo nas áreas mais saturadas.

Resta saber até que ponto estas medidas serão eficazes. Alguns críticos alertam que tudo dependerá da capacidade de fiscalização e que o mercado ilegal poderá continuar a existir. Outros consideram que esta é uma etapa necessária para devolver a cidade aos seus habitantes.

O que parece claro é que Valência deixou de apostar no crescimento turístico a qualquer custo. Tal como outras cidades europeias, enfrenta agora um desafio mais complexo: definir não apenas quantos visitantes quer receber, mas que tipo de cidade pretende ser no futuro.

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