A easyJet anunciou recentemente uma nova campanha de recrutamento para tripulantes de cabine dirigida especificamente a pessoas com mais de 50 anos, com as candidaturas a abrirem em Setembro de 2026 para centenas de vagas nas suas bases no Reino Unido, a preencher já em 2027. A novidade não é o início desta aposta, mas sim o reforço de uma estratégia que a companhia low-cost tem vindo a desenvolver desde 2022, e que já produziu resultados visíveis: o número de tripulantes com mais de 50 anos cresceu 127 por cento nesse período, enquanto o de tripulantes acima dos 60 quase quadruplicou. Atualmente, cerca de 12 por cento de toda a tripulação de cabine da easyJet tem mais de 50 anos.

Como começou

A iniciativa nasceu em finais de 2022, numa altura em que a aviação europeia atravessava uma escassez generalizada de pessoal, resultado direto da onda de despedimentos e reformas antecipadas provocada pela pandemia. Nessa fase, a easyJet lançou uma campanha dirigida sobretudo a “empty nesters” — pessoas cujos filhos já saíram de casa — e a quem procurava uma mudança de carreira tardia, argumentando que a idade não devia ser um obstáculo para entrar na aviação. O que começou como uma resposta pragmática a um problema de recrutamento transformou-se, com o tempo, numa política estrutural da companhia.

As razões por detrás da estratégia

Segundo a easyJet, a lógica não é apenas numérica. A companhia argumenta que candidatos mais velhos trazem competências que se transferem diretamente para a função de tripulante de cabine: capacidade de comunicação, resolução de problemas e sobretudo a calma necessária para lidar com situações inesperadas ou de stress a bordo. Michael Brown, diretor de serviços de cabine da easyJet, tem sublinhado publicamente que cada vez mais pessoas encaram esta profissão como uma opção viável de mudança de carreira, independentemente da idade.

Há também uma componente de perceção junto dos passageiros: a companhia afirma que os clientes valorizam a experiência de vida que os tripulantes mais velhos trazem para o trabalho, algo que se reflete na forma como lidam com situações delicadas ou com passageiros mais ansiosos durante o voo.

Um inquérito conduzido pela easyJet junto de tripulantes com mais de 50 anos reforça esta narrativa: cerca de 80 por cento afirmou sentir que a sua experiência de vida anterior foi valorizada desde o primeiro dia, 75 por cento disse que a formação lhes deu confiança mais rapidamente do que esperavam, e 85 por cento manifestou satisfação com o ambiente multigeracional das equipas. Dois terços apontaram a interação com passageiros como um dos aspetos mais gratificantes da função, e mais de metade destacou a variedade dos dias de trabalho como uma vantagem face a carreiras anteriores mais rotineiras.

Um problema mais amplo do que a EasyJet

Esta aposta não é exclusiva da companhia britânica, mas insere-se numa tendência mais alargada do setor da aviação, que continua a sentir dificuldade em preencher vagas de tripulação depois dos cortes maciços de pessoal durante a pandemia. Ao mesmo tempo, há uma pressão crescente por parte de governos europeus — incluindo o britânico, que já elogiou publicamente esta iniciativa — para que as empresas aproveitem melhor a experiência e as competências de trabalhadores mais velhos, numa altura em que a população ativa envelhece e a idade de reforma tende a subir. O Ministro do Emprego britânico, Andrew Western, chegou a saudar diretamente a easyJet como exemplo de uma empresa que sabe reconhecer o valor desta faixa etária.

Do ponto de vista da própria easyJet, há ainda uma vantagem estratégica menos falada: candidatos mais velhos tendem a procurar uma segunda carreira, não necessariamente um emprego de passagem antes de seguirem para outra área, o que pode traduzir-se em maior estabilidade e retenção de pessoal — um problema histórico neste tipo de função, tradicionalmente associada a alta rotatividade entre trabalhadores mais jovens.

O que muda para quem quer candidatar-se

Na prática, a easyJet não impõe um limite máximo de idade para se candidatar a tripulante de cabine, e a nova campanha de Setembro de 2026 destina-se sobretudo a desmontar a ideia de que esta é uma profissão pensada apenas para trabalhadores mais jovens. Para quem entrar na empresa, existe ainda a possibilidade de progressão a Chefe de Cabine ao fim de doze meses de trabalho, independentemente da idade com que se ingressou na função.

Para já, a mensagem da companhia é clara: uma carreira nos céus já não tem de começar aos vinte anos, e o crescimento sustentado do número de tripulantes mais velhos nos últimos quatro anos parece confirmar que cada vez mais pessoas estão a levar essa ideia a sério.

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