8 de Janeiro de 2026
Último dia em Jinja. Já não sei bem o que fazer, não encontro opções para preencher o dia. E mesmo descansar começa a cansar. Já me sinto revigorado, graças ao alojamento de qualidade que escolhi. Aquele terraço privado pode operar milagres e dar vida a um morto. Passei longas horas a esticar os ossos no confortável sofá da varanda, livro na mão, por vezes acompanhado de uma cerveja bem gelada, passando as páginas placidamente enquanto os sons da vida local chegavam aos meus ouvidos.
Jinja cumpriu totalmente a sua missão nesta viagem. Ofereceu coisas novas e uma bem-vinda mudança de ritmo. Em suma, uma excelente opção para parar um pouco e ter uma perspectiva da vida no Uganda sem preocupações.

Entretanto, para resolver o impasse do programa para o dia recorri à ajuda do amigo AI. A sugestão recebida revelou-se preciosa: visitar um bairro de pescadores nos subúrbios da cidade, muita vida local, actividade piscatória… pareceu-me bem.
Um Uber até lá, deixados à entrada do bairro, suspeito que pelo mau estado da estrada até ao centro, e a pé pelo meio dos buracos na terra batida. Percebi logo que tinha sido uma grande escolha. Aquilo foi explorar à vontade. As pessoas ignoraram-nos ou mandaram cumprimentos ao longe. Zero hostilidade.

Logo à entrada encontra-se uma estranha torre. Se fosse por cá diria que tinha sido em tempos o edíficio da capitania, mas ali não faz sentido. Algum projecto aparentemente louco que foi abandonado. Depois, a rua principal, se se pode chamar rua à viela. A quantidade de comércio para uma comunidade tão pequena é impressionante. À direita um edifício de aspecto duvidoso reclama para sí o título de “hotel”. O hotel da mamã Clinton.
No centro do bairro, uma espécie de lota, o local para onde o pescado é levado depois de desembarcado. Aquela hora estava quase vazio. Apenas alguns peixes, por acaso de dimensões consideráveis, aguardavam o seu destino.

Num canto mais afastado observo um grupo de homens tentando – e conseguindo – acomodar na mesma mota, para além do condutor, uma cabra e mais dois passageiros. A foto acima prova o que digo. De resto, três, quatro ou mesmo cinco pessoas numa mota é uma visão comum nas ruas e estradas do Uganda.
A aldeia é pobre. Tudo ali é pobre. Mas de alguma maneira encontra-se na sua extremidade um parque urbano relativamente bem cuidado. Há até um bar, que parece fechado mas onde logo aparece um rapaz que se materializa assim que sente o meu interesse numa bebida.
No parque infantil integrado no espaço a criançada brinca com a alegria própria dos africanos. O seu chilrear invade o ar com uma boa-disposição contagiante.

De um grupo de barcos de pesca, todos feitos de madeira, chamam-me. Três pescadores ficaram de curiosidade aguçada ao verem os estrangeiros num local tão improvável. Dois deles eram mais tímidos, mas falei longamentge com o terceiro, que vestia uma camisa da seleção nacional do Uganda. Ainda hoje, de vez em quando, trocamos mensagens no WhatsApp. Gente simpática. Fez questão de insisitir para se tivesse algum problema no Uganda o deveria contactar de imediato que tudo se resolveria.
Chegou a hora de sair daquele lugar, que se revelou um dos pontos altos, não só da passagem pelo Uganda mas também da viagem por esta parte de África.

Mais um Uber, que desta vez nos deu uma bela seca. Para a Main Road de Jinja. Tinha apetite e tínhamos combinado com o nosso fornecedor de SIM Cards almoçar com ele e a esposa, que também os vendia, noutra esquina ali próxima. Foi um momento menos agradável. De certa forma deu para entender que pretendiam dinheiro. Não coisa pouca, sei lá, pela companhia, mas um investimento, para abrirem uma loja. Mas pronto, lá se comeu, o desconforto mantido sob controlo, e fiquei satisfeito quando nos despedimos. Satisfeito por um lado, triste por outro. Será que toda aquela simpatia desde o primeiro momento tinha sido criada para conduzir a este momento?
Uma paragem no supermercado para alguns abastecimentos e finalmente o terceiro Uber do dia, de volta ao pequeno paraíso à beira da água. Mais tarde jantámos por lá, na tranquilidade do serão, antes da noite tranquila. O dia seguinte seria de viagem, rumo a Entebe, passando por Kampala.
