11 de Janeiro de 2026
A elemento designado pela família para conduzir o carro esperava-nos lá em baixo. Espreitei pela janela. Ultimava a limpeza cuidadosa do carro. Descemos, demos os bons-dias e fomos, de novo com a anfitriã ao lado do condutor, para o lugar onde apanharíamos a carrinha para Kabale. Ou pelo menos onde eles pensavam que seria. Fraquezas de membros da classe média alta: sendo da terra não faziam ideia de onde partiam as carrinhas para sul, mas eu sabia. Lá atrás, a olhar para o mapa, ficava cada vez mais confuso com as voltas. Perguntei para onde estavamos a ir. Respondeu que estavam à procura do lugar certo. Que não fosse por isso, podiam ter-me perguntado em vez de se confundirem mais questionando pessoas que não conheciam. No fim chegámos ao terminal. Estava um belo dia, tinha dormido bem, estava capaz de enfrentar uma jornada de estrada.
Cento e cinquenta quilómetros, umas boas horas de caminho. Mas o mais complicado foi mesmo conseguir que a carrinha enchesse e, por fim, partisse. Quando entrámos no terminal logo toda a gente indicou a viatura certa, como é normal nestes locais em África. Mas depois é que foi esperar. Talvez uma hora. Uma hora passada a observar tudo. E tanto que há para ver ali.

Aqui tínhamos o esterótipo da estação de transportes africana. Gente, muita gente, vestidos garridos, vendedores de tudo, muitos produtos que nos eram completamente desconhecidos. A algazarra, o regateio, os angariadores de passageiros que apregoam as suas partidas. O desacato pontual, um pico de exaltação para logo tudo regressar ao normal. Há tempo para tudo. Compro uma garrafa de água, que me cheira a muito suor pela frente. Cansado de esperar, vou ocupar o meu lugar, designado pelo condutor, como por aqui é costume. Um bom lugar, ao meio – logo, fora dos eixos de rodado onde a suspensão se torna desconfortável – com janela. Fico ali na modorra até começarem os ameaços de partida. O costume. Parece que vai mas não vai. Há sempre mais qualquer coisa. Um passageiro de última da hora ou outro que sentiu qualquer necessidade de última hora, ou a carga que chega apressada num táxi, e ainda terá que ser içada para o tejadilho. Entre cada poucos segundos um novo vendedor faz uma ronda pela lateral da carrinha, olhos ansiosos postos nos potenciais clientes.
E por fim, sim, a caminho de Kabale, a última paragen no Uganda antes de alcançar o Rwanda.

Foi uma viagem sem grande história, feita de paciência, os olhos postos na paisagem, vendo os campos desfilar. Em cada paragem uma núvem de vendedores envolvia a carrinha, e a verdade é que sempre algum passageiro acabava por comprar qualquer coisa. Como demasiadas vezes acontece o meu cérebro de fotógrafo repetia enquadramentos e angustiava-se com as imagens que não eram recolhidas.
Chegamos a Kabale. Para uma só noite um alojamento simples de beira de estrada, na zona mais central da cidade. No piso térreo um café e restaurante, com alguns quartos nos dois andares superiores. Serviria e na realidade a noite foi até surpreendentemente sossegada. Mas para já havia que alimentar a ilusão de que algo de interessante existia em Kabale. Ou pelo menos que, não havendo pontos de interesse em especial, poderia ser interessante conhecer a cidade. Não é. Poderia ter palmilhado todas as ruas que, estou certo, não teria mais para contar do que se simplesmente me sentasse o resto do dia na esplanada do café.

Mas tentei. Procurei algumas coisa que me pareceram vagamente interessantes quando estudei o mapa e fiz algumas leituras. Não encontrei nada mais do que um puto inconveniente – alcoolizado ou high – que decidiu andar comigo e falar sem parar. Acabei por lhe dar uma nota só para recuperar a tranquilidade perdida.
Encontrei uma espécie de supermercado, parei num café qualquer, peguei em algo para comer e dei a experiência de Kabale como terminada. Restava esperar pelo dia seguinte. No quarto, com uma saída breve para um bom jantar no restaurante do piso de baixo.


