A viagem pelo Nepal já levava algumas semanas, todas elas passadas no vale de Kathmandu: Patan, Bhaktapur, Panauti e, claro, a própria capital. Estava na altura de mudar de ares, rumar a Pokhara, uma cidade muito popular entre os viajantes, conhecida pelo seu lago e estilo de vida pausado.

Só havia um problema: como chegar até lá. A via aérea estava fora de questão. Para além das passagens terem preços absurdos para o tempo de voo, um dos aviões daYeti Airlines tinha acabado de se despenhar junto ao aeroporto de Pokhara. Todas as 72 pessoas a bordo perderam a vida, aparentemente devido a um erro humano do comandante.

Restava então o autocarro e o calvário de uma longa viagem através de montanhas. Teoricamente uma ligação que demora umas sete horas. Em circunstâncias normais. Não quando uma boa parte do percurso está em obras. E com a agravante de ires sentado numa cadeira dura sobre o eixo traseiro e num veículo basicamente sem suspensão.

Ao virar da quinta hora estávamos a meio do caminho. E então ocorreu-me. Sair do autocarro próximo de Bandipur, uma aldeia histórica que trazia marcada no meu roteiro, e que poderia ser uma boa opção para repartir a desconfortável viagem em duas partes. Assim foi feito.

Depois de mais uma divertida meia-hora a bordo de um autocarro local que repetia o trajecto entra a aldeia e a estrada principal, chegamos a Bandipur. Sem nada marcado, à descoberta.

O quarto em Bandipur. Não parece grande coisa e de facto não era…. mas um quarto não é tudo.

Não tínhamos ainda caminhado uns 200 metros na rua principal da aldeia e decidimos perguntar por um quarto numa casa de hóspedes – a Diya’s Guest House – que nos pareceu ter uma boa onda. O preço era bom, o quarto nem por isso, mas enfim, seria só por uma noite. Podíamos já deixar ali as mochilas e sair para explorar as imediações em vez de andar de casa em casa a gastar tempo e fazer comparações.

A aldeia era verdadeiramente adorável. Naquele Nepal, ainda mais que na cidade, as pessoas apareciam em trajes tradicionais, coloridos, com significado próprio. Era um desfilar de personagens que dava gosto de ver. As rua principal era um espectáculo, apesar de um certo abuso dos negócios destinados aos (raros) turistas que se viam. Vida local, cor, detalhes deliciosos.

E havia as ruelas secundárias, feudos das respectivas vizinhanças que recebiam os visitantes sem hostilidade. Percorremos tudo aquilo com a fome de quem sabe que pela manhã a partida era inevitável. Ou não seria…?

A verdade é que decidimos adiar a partida para Pokhara e ficar mais um dia a recuperar da provação da véspera.

Uma varanda com vista para um mundo maravilhoso

Começámos a conhecer as proprietárias da casa de hóspedes. Sim, porque se tratava de um negócio matriarcal. Avó, mãe e filha. Sempre com boa disposição e um sorriso enorme nas faces.  E na sua companhia foi delicioso sentar no terraço térreo da casa, observando as pessoas que passavam sem parar. Passeámos mais, descobrimos novos recantos. Chegou a noite, que passou, para dar lugar à manhã. E mais uma vez a vontade de seguir viagem se deixou vencer pelo gosto de estar ali, com aquela família, naquela aldeia. Ficámos mais um dia, o que despertou risos das anfitriãs.

E foi assim, dia após dia. A Pokhara nunca chegámos. Por ali ficámos cinco noites, e dali seguimos para Kathmandu e para outras aventuras.

Naqueles dias de Bandipur percorremos as mesmas ruas, caminhámos 10 km para chegar a uma aldeia remota, onde carros não conseguem ir. O Nepal profundo, rural, pobre. À conversa com o dono da pequena venda local, descobri que se tratava de uma aldeia mongol, que mantinha a sua cultura e homogeneidade étnica desde os tempos do império. É uma bolha rodeada por nepaleses, um grupo de cento e pouco pessoas, das quais umas dez vivem e trabalham em… Portugal.

Subimos à colina íngreme onde se encontra o templo e de onde se têm vistas impressionantes sobre a aldeia e as montanhas envolventes. Tomámos refeições fantásticas, deliciámo-nos com bebidas frescas em vários dos cafés de Bandipur. Foram dias muito bons, e apenas possíveis graças à nossa querida casa de hóspedes e às mulheres que a mantêm.

A senhora avó só sorria, desdentada. A mãe é o dínamo de tudo aquilo, falando um inglês quebrado, suficiente para a conversa práctica do dia a dia. E quando não bastava a filha aparecia, com um falar fluente, tradutora esmerada. Combinámos refeições, recebemos dicas, sugestões, histórias da família e da vida na aldeia.

Na hora do adeus, uma cerimónia, que nos foi explicada de forma sumária: éramos aceites como parte da família. Recebemos uma coroa de flores, uma pinta na testa e uma bebida para a ocasião. Levaram-nos ao autocarro que partia. Foi muito emocional. Uma estadia memorável.

Com a modernidade a chegar descobri que a “minha” casa de hóspedes tinha agora presença no Booking: Diya’s Guest House

Uma pequena galeria de Bandipur:

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