Durante muito tempo, entrar no Turquemenistão foi uma prova de paciência. Quem queria visitar o país tinha de recorrer a uma agência turística licenciada, esperar que esta obtivesse uma carta-convite junto dos serviços de imigração e só depois avançar com o pedido de visto. O processo costumava arrastar-se durante semanas e podia terminar numa recusa sem qualquer explicação. Desde 1 de Outubro de 2026, existe uma alternativa muito mais simples.
O que mudou
O país passou a emitir vistos eletrónicos através de um portal oficial dos serviços de migração, o evisa.migration.gov.tm. O pedido faz-se online, o pagamento é feito em dólares americanos e o visto chega por email. Para os turistas, o grande avanço é a dispensa da carta-convite, o que tira o Turquemenistão da lista dos destinos mais complicados de organizar por conta própria.
Existem três tipos de visto eletrónico: o turístico, o de negócios, válido até trinta dias, e o humanitário. Só o primeiro dispensa o convite. Quem viaja em trabalho precisa de uma carta de uma empresa registada no país, com o cargo do requerente, e quem vai em missão humanitária tem de apresentar um documento oficial da organização ou da agência da ONU que confirme a deslocação.
Papéis e prazos
Para o visto turístico, a documentação é modesta. Pede-se uma cópia da página do passaporte com a fotografia, que tem de estar válido pelo menos seis meses a contar da data de entrada, uma fotografia recente a cores com fundo branco, de acordo com as normas da ICAO, e um endereço de email que funcione, já que é por aí que chegam as atualizações e o próprio visto. O itinerário ou a reserva de hotel e o seguro de saúde são facultativos. Mesmo assim, juntar a reserva não custa nada e dá ao funcionário uma pergunta a menos para fazer.
O resto do processo é igualmente direto. Escolhe-se o tipo de visto, carregam-se os ficheiros, seleciona-se a rapidez do tratamento e paga-se. O valor é calculado nessa fase e depende da velocidade escolhida: sete dias úteis no serviço normal, três no urgente e vinte e quatro horas no super urgente. Quanto mais curto o prazo, mais caro fica, e as comissões bancárias somam-se ao total. O portal tem ainda uma área para acompanhar o estado do pedido, e quem renovar o passaporte depois de o visto ser emitido pode transferi-lo para o novo documento, sem recomeçar do zero. Vale a pena imprimir o visto e guardar também uma cópia no telemóvel.
O que ainda ninguém sabe
O sistema tem poucos dias de vida e há lacunas importantes para quem está a planear. O preço só aparece durante o pedido. Não está publicado quanto tempo um turista pode ficar, ao contrário do que acontece com o visto de negócios. Também não existe uma lista de nacionalidades elegíveis, pelo que os portugueses devem confirmar a sua situação antes de reservar o que quer que seja. E não é claro quais as fronteiras terrestres que aceitam o visto. Chegar de avião a Ashgabat é a aposta mais segura, e quem pensa entrar por terra, vindo do Uzbequistão numa viagem pela Rota da Seda, deve contactar a linha de apoio antes de partir.
A informação de outros países também ainda não acompanhou a novidade. A página do governo britânico sobre o Turquemenistão continua a descrever o antigo regime da carta-convite, e é natural que companhias aéreas e guardas de fronteira demorem algum tempo a ajustar-se. Por isso, o mais prudente é levar sempre uma cópia em papel.
Registo à chegada
O visto eletrónico não elimina a obrigação de registo. Quem ficar mais de três dias úteis tem de ser registado junto dos serviços de migração nos três dias seguintes à chegada, tarefa que os hotéis costumam tratar em nome dos hóspedes. Esta formalidade também passou a fazer-se online, num portal próprio, o rgstr.migration.gov.tm, onde estrangeiros e anfitriões podem registar, prolongar ou cancelar uma estadia sem ir a um gabinete. É boa ideia levar algum dinheiro em dólares para pequenas despesas à chegada.
Como chegar a partir da Europa
A Turkmenistan Airlines tem voos diretos para Ashgabat a partir de Londres, Frankfurt e Milão, e voa várias vezes por dia desde Istambul, cidade que a Turkish Airlines também liga à capital turquemena. Istambul é, por isso, o ponto de ligação mais prático para quem parte do resto da Europa. Do lado português, a opção realista passa por uma escala aí, já que a lista de ligações diretas não inclui nenhuma cidade do país.
Muitos dos voos diretos aterram depois da meia-noite, entre as duas e as quatro da manhã, pelo que convém reservar a primeira noite de hotel para a véspera da chegada. Ashgabat é também a plataforma dos voos internos, com ligações frequentes para Mary, Dashoguz, Turkmenabat e Turkmenbashy, esta última na costa do Mar Cáspio.
O que vale a visita
Ashgabat entrou para o Guinness em 2013 como a cidade com maior densidade de edifícios de mármore branco do mundo. No deserto de Karakum, a cratera de gás em chamas de Darvaza, conhecida como “Porta do Inferno”, é a imagem mais famosa do país. Perto de Mary fica Merv, uma das grandes cidades da Rota da Seda e Património Mundial da UNESCO, a uma curta viagem aérea da capital. Nos arredores de Ashgabat encontram-se as fortalezas partas de Nisa, também classificadas pela UNESCO, e no norte, via Dashoguz, os mausoléus e minaretes medievais de Kunya-Urgench.
Antes de partir
Há regras que merecem atenção. As VPN são ilegais e costumam estar bloqueadas, tal como várias redes sociais, entre elas YouTube, X, Facebook e WhatsApp. Convém descarregar mapas offline e avisar a família de que as comunicações podem falhar. Fotografar certos edifícios é proibido, sobretudo perto de aeroportos, instalações militares, esquadras, edifícios do Estado e embaixadas, e deve pedir-se autorização antes de fotografar pessoas. O acesso às zonas junto das fronteiras com o Afeganistão e o Irão é fortemente restrito, e fora das cidades é melhor não conduzir de noite por causa do estado das estradas.
Por fim, o pedido deve ser feito apenas no portal oficial. Sites de terceiros com aspeto institucional cobram frequentemente um sobrepreço pelo mesmo serviço, e como as regras podem mudar depressa, convém confirmar tudo no portal antes de comprar voos. O Turquemenistão continua longe de ser um destino fácil, mas pela primeira vez em muito tempo a porta de entrada deixou de estar fechada à chave.


